Publicado em: 24/03/2026 às 10:10hs
O papel do Brasil no comércio global de soja é mais complexo do que a simples exportação de matéria-prima. A avaliação é do estrategista Carlos Alberto Tavares Ferreira, fundador da Carbon Zero, que aponta uma leitura equivocada sobre a relação comercial entre Brasil e China.
Segundo ele, o país asiático absorve entre 70% e 80% das exportações brasileiras de soja, consolidando-se como principal destino da produção nacional. No entanto, essa relação envolve uma estrutura mais ampla, que vai além da compra do produto.
Empresas ligadas à China vêm ampliando sua atuação em diferentes etapas da cadeia produtiva no Brasil. A COFCO Corporation, por exemplo, já responde por cerca de 10% a 15% das exportações de grãos do país, posicionando-se entre as principais tradings em operação.
Ao mesmo tempo, a China Merchants Port mantém participações relevantes em terminais portuários na América Latina, incluindo ativos estratégicos no Brasil, fortalecendo sua atuação na logística de escoamento.
O avanço chinês segue uma lógica de integração vertical iniciada na última década, conectando diferentes elos do agronegócio — da produção à exportação.
Entre os principais movimentos, destacam-se:
Essas iniciativas ampliam o controle sobre trading, insumos, tecnologia e infraestrutura, consolidando uma presença estratégica na cadeia global de alimentos.
Na prática, o produtor brasileiro segue responsável pelo cultivo e, em muitos casos, por parte do financiamento da produção. No entanto, depende de estruturas dominadas por capital estrangeiro para comercialização e logística.
Esse modelo resulta em uma participação ativa na produção, mas sem controle sobre o sistema como um todo, o que limita o poder de decisão e influência do Brasil dentro da cadeia global.
Os investimentos chineses em infraestrutura portuária ao redor do mundo já superam US$ 20 bilhões, incluindo projetos estratégicos que impactam diretamente o escoamento da produção brasileira.
Entre os exemplos estão:
Embora essas iniciativas contribuam para reduzir custos logísticos, também ampliam a influência externa sobre a cadeia produtiva do agronegócio.
A concentração de diferentes funções — produção, logística, trading e tecnologia — em um mesmo grupo tende a estruturar o mercado, reduzindo sua dinâmica plenamente competitiva.
Esse cenário impacta diretamente a formação de preços e pode limitar a autonomia do Brasil na definição de estratégias comerciais.
Para especialistas, o principal desafio do país está na forma como essa relação é interpretada. Ainda vista por muitos como uma simples exportação de commodities, ela representa, na prática, a inserção do Brasil em uma cadeia global com forte influência externa.
O entendimento desse modelo é considerado essencial para o desenvolvimento de políticas e estratégias que ampliem a competitividade e a autonomia do agronegócio brasileiro no longo prazo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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