Publicado em: 03/07/2026 às 10:00hs
Nova geração de soja pode mudar o padrão do óleo vegetal
A soja com alto teor de ácido oleico — conhecida internacionalmente como HOSB (high-oleic soybean) — vem ganhando destaque no mercado global por suas características superiores de qualidade, estabilidade e versatilidade de uso.
Nas cultivares comerciais já disponíveis, principalmente nos Estados Unidos, o teor de ácido oleico pode ultrapassar 70% a 75%, patamar muito próximo ao do azeite de oliva, considerado referência em qualidade nutricional e estabilidade oxidativa.
No Brasil, o tema ainda está em fase inicial de desenvolvimento comercial, mas especialistas apontam grande potencial de expansão nos próximos anos.
Nas cultivares convencionais de soja, o óleo é composto, em média, por:
A presença elevada de ácidos graxos poli-insaturados torna o óleo mais suscetível à oxidação, o que reduz sua estabilidade e vida útil.
Já a elevação do teor de ácido oleico reduz significativamente esse processo, aumentando a resistência à oxidação e melhorando o desempenho do óleo em armazenamento, fritura e processamento industrial.
O avanço da soja alto-oleica está relacionado a mutações em dois genes-chave (FAD2-1A e FAD2-1B), responsáveis pela enzima delta-12 desaturase.
Quando essas mutações estão combinadas em homozigose, o teor de ácido oleico pode chegar a 75%–85%, contra cerca de 20% na soja convencional.
Esse mecanismo genético relativamente simples permite tanto o desenvolvimento via biotecnologia quanto por melhoramento convencional, incluindo:
Segundo o Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), o avanço dessas tecnologias amplia a competitividade da cadeia da soja no cenário global.
O ácido oleico é um ômega-9 associado à redução do colesterol LDL, considerado o “mau colesterol”, contribuindo para a redução do risco cardiovascular.
Além disso, o óleo de soja alto-oleico apresenta vantagem relevante no processamento industrial: reduz ou elimina a necessidade de hidrogenação parcial.
Esse processo é responsável pela formação de gorduras trans, associadas a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, inflamações crônicas e outros problemas de saúde.
Com maior estabilidade, o óleo HOSB também melhora o desempenho em frituras, reduzindo degradação térmica e aumentando a vida útil em processos industriais de alimentos.
O setor de biodiesel é um dos principais beneficiados pela soja alto-oleica.
Atualmente, o biodiesel produzido a partir de soja convencional apresenta limitações como:
Com maior teor de ácido oleico, o biodiesel se torna mais estável, reduzindo custos com aditivos e melhorando o atendimento às normas internacionais, como a EN 14214.
No Brasil, onde cerca de 85% do biodiesel é derivado do óleo de soja e a mistura obrigatória avança para níveis mais altos, o avanço da HOSB pode representar ganho de competitividade e maior eficiência energética.
Além do setor alimentício e energético, a soja HOSB também avança em aplicações industriais, como:
A combinação de estabilidade térmica, baixa oxidação e biodegradabilidade torna o produto altamente competitivo frente a alternativas de origem fóssil.
O cultivo de soja alto-oleica já ocupa cerca de 0,7 milhão de hectares nos Estados Unidos, com projeção de expansão para 1,5 milhão de hectares até 2030.
O mercado global desse tipo de óleo movimentou aproximadamente US$ 3,26 bilhões em 2024, com crescimento anual estimado em 8,1%, podendo alcançar US$ 6,37 bilhões até o final da década.
A expansão é impulsionada principalmente pela indústria alimentícia, mas também avança nos setores de energia, cosméticos e produtos industriais.
Embora o Brasil tenha histórico de pesquisas com soja de perfil diferenciado — como cultivares desenvolvidas pela Embrapa — a produção comercial de materiais com alto teor de ácido oleico ainda é limitada.
Estimativas indicam que o país pode colher cerca de 180 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27, o que demonstra o enorme potencial de geração de valor caso a HOSB avance em escala comercial.
Especialistas destacam que a adoção de sistemas de identidade preservada (IP), com segregação desde a colheita até o processamento, será fundamental para capturar os prêmios de mercado.
Com o avanço das exigências regulatórias sobre gorduras trans, a busca por óleos mais estáveis e a expansão da bioeconomia, a soja alto-oleica tende a ocupar espaço crescente na cadeia global.
A médio e longo prazo, o segmento deve se consolidar como uma importante alternativa de agregação de valor para produtores, indústrias alimentícias e setor energético, especialmente em mercados exportadores.
No Brasil, o desafio será combinar tecnologia, logística e organização de cadeia para transformar potencial genético em vantagem econômica real no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias