Publicado em: 06/02/2026 às 11:10hs
A colheita de soja segue em ritmo desigual entre as regiões produtoras do país, combinando boas expectativas de produtividade com entraves logísticos e impactos diretos das condições climáticas. Segundo análise da TF Agroeconômica, o cenário de 2026 reflete uma recuperação importante em estados como o Rio Grande do Sul e o Mato Grosso, mas também revela gargalos estruturais que limitam a fluidez do mercado e pressionam custos de frete e armazenamento.
No Rio Grande do Sul, a estimativa é de 21,44 milhões de toneladas, alta de 57,14% em relação à safra anterior, marcada por perdas climáticas severas. A semeadura atingiu 98% da área prevista, e as lavouras estão, em sua maioria, em bom estado. Entretanto, a colheita ainda não chegou a 1%, e a disputa por caminhões e espaço nos armazéns, especialmente com o milho já colhido em 59% da área, tem elevado o custo logístico, sobretudo no transporte até o porto de Rio Grande.
Em Santa Catarina, a forte integração agroindustrial garante estabilidade ao mercado, já que boa parte da produção é absorvida pelo complexo de proteína animal. A colheita começa em ritmo regular, priorizando o abastecimento interno e reduzindo a dependência de exportações.
No Paraná, cerca de 14% da safra já foi colhida, ritmo menor do que o registrado em anos anteriores por causa das temperaturas mais amenas. Mesmo assim, as lavouras mantêm boas condições e devem acelerar o ritmo nas próximas semanas. O setor já monitora com atenção questões de armazenagem, enquanto os fretes seguem estáveis.
O Mato Grosso do Sul caminha para uma das maiores colheitas da história, mas enfrenta limitações de infraestrutura e gargalos de escoamento. Com o avanço da colheita, cresce a disputa por caminhões e a pressão sobre os armazéns, que já operam próximos ao limite.
No Mato Grosso, principal estado produtor do país, 24,97% da área já foi colhida, com uma estimativa de 47,2 milhões de toneladas. No entanto, o excesso de chuvas na região norte tem provocado paralisações e aumento do número de grãos avariados, o que gera descontos na comercialização e amplia a tensão logística, com fretes em alta e capacidade de armazenagem insuficiente.
Enquanto o Brasil enfrenta desafios logísticos, o mercado internacional reage às movimentações políticas e comerciais envolvendo os Estados Unidos e a China. Após duas semanas de valorização intensa, a Bolsa de Chicago (CBOT) registrou nesta sexta-feira (6) uma realização de lucros, com os principais contratos da soja recuando entre 1,25 e 2,50 pontos. O vencimento março foi cotado a US$ 11,09 por bushel, e o maio a US$ 11,23.
Os contratos do farelo e do óleo de soja também recuaram, devolvendo parte dos ganhos anteriores — o óleo caiu cerca de 0,6% no dia. A volatilidade é alimentada pelas declarações recentes do presidente americano Donald Trump, que afirmou que a China teria se comprometido a comprar 20 milhões de toneladas de soja ainda nesta temporada.
Na quinta-feira, o mercado reagiu fortemente às declarações de Trump sobre um possível acordo para ampliar as compras chinesas. Caso a China efetive a aquisição adicional de 8 milhões de toneladas no curto prazo, os estoques americanos da safra 2025/26 — atualmente confortáveis, em torno de 9,5% — poderiam ser reduzidos de forma significativa.
Segundo o analista Rafael Silveira, da Safras & Mercado, o movimento tem potencial para pressionar os estoques dos EUA e afetar diretamente os prêmios de exportação brasileiros, especialmente neste período de avanço da colheita no país.
Contudo, Silveira destaca que os preços da soja norte-americana seguem acima dos praticados no Brasil, o que levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica das compras chinesas em grande escala. “A menos que haja incentivos governamentais ou subsídios, é improvável que a China concentre aquisições tão volumosas dos EUA”, avalia.
Apesar do otimismo recente, parte do movimento de alta é considerado especulativo e depende da confirmação das compras chinesas. Enquanto isso, o mercado segue atento aos fundamentos de oferta e demanda, dividindo espaço com as incertezas financeiras e os picos de aversão ao risco.
Os contratos de soja em grão com entrega em março encerraram a última sessão com alta de 20 centavos de dólar, a US$ 11,12 por bushel, e a posição maio a US$ 11,26. O farelo subiu US$ 7,00, chegando a US$ 303,20 por tonelada, enquanto o óleo fechou praticamente estável, a 55,65 centavos de dólar.
Fonte: Portal do Agronegócio
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