Soja

Sergipe, Alagoas e Bahia têm tudo para serem grandes polos de produção de soja

A VLI, empresa administradora do Porto de Sergipe, no fim de 2015, carregou um navio com 32 mil toneladas de soja provenientes do município de Luiz Eduardo Magalhães, oeste baiano, que percorreu 1.200 quilômetros até chegar ao litoral


Publicado em: 08/07/2016 às 09:00hs

Sergipe, Alagoas e Bahia têm tudo para serem grandes polos de produção de soja

Produtividade acima da média nacional, proximidade do porto para exportação, demanda do mercado local, possibilidade de rotacionar a soja com o milho, diversificar as culturas, evitar risco de comercialização de um só produto e diminuir a proliferação de pragas e doenças. Essas são apenas algumas das vantagens das variedades de soja testadas pela Embrapa Tabuleiros Costeiros e validadas para a região que fazem do estado de Sergipe um grande polo competitivo para os produtores interessados em plantar soja, como também os estados vizinhos, Alagoas e Bahia, região denominada de Sealba.

A VLI, empresa administradora do Porto de Sergipe, no fim de 2015, carregou um navio com 32 mil toneladas de soja provenientes do município de Luiz Eduardo Magalhães, oeste baiano, que percorreu 1.200 quilômetros até chegar ao litoral. Foi o quinto navio com o produto, dessa vez com destino à Rússia. "Produtores de Sergipe, Alagoas e nordeste da Bahia (Sealba) podem exportar a soja produzida de uma distância muito menor, em um raio em torno de 300 quilômetros do porto", disse o gerente da VLI, Valdeilson Paiva. "A soja é uma commodity com grande mercado internacional, e Sergipe precisa aproveitar essa potencialidade", complementa.

"Constatei o drama de levar a soja de Mato Grosso até o porto de Paranaguá, no Paraná. O caminhão chega a rodar mais de dois mil quilômetros", conta o pesquisador da Embrapa Sérgio de Oliveira Procópio que, desde 2013, avaliou mais de 70 cultivares de soja nas condições de solo e clima dos Tabuleiros Costeiros e Agreste.

"O agricultor do estado teria uma vantagem econômica de cerca de R$ 10 por saca pela proximidade do porto de Sergipe, pois quem paga o frete é o produtor. Se considerar a média nacional de produção do grão de aproximadamente três mil quilos por hectare, seriam 50 sacas, ou seja, R$ 500 por hectare, pagos só com o frete", explica.

E as vantagens competitivas não param por aí. De acordo com o pesquisador, a época de plantio e colheita diferenciada em relação às demais regiões produtoras de soja no Brasil é muito favorável para o estado. No Centro-Sul (RS, SC, PR, SP, GO, MT e MS) a colheita ocorre no fim de janeiro até fim de março e a da nova fronteira agrícola denominada Matopiba (que compreende o Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste da Bahia) ocorre de março a maio. No Sealba, pode ocorrer entre fim de agosto e início de outubro. "É uma vantagem muito grande. A soja pode ser colhida na época em que a maioria dos produtores do país está plantando, tornando-a mais competitiva inclusive no mercado internacional", relata o pesquisador.

O custo de produção também é um diferencial no Sealba, devido aos seguintes fatores: baixa incidência de doenças (menor custo com fungicidas) e a disponibilidade natural de potássio no solo em várias áreas agrícolas do Sealba.

FORNECEDOR DE SEMENTES

Enquanto nas demais regiões do Brasil o cultivo da soja é de primavera-verão, no Sealba é de outono-inverno, favorável ao desenvolvimento da planta, pois o gasto de fotoassimilados (compostos resultantes da fotossíntese) pelas plantas de soja em noites mais frias é menor.

O Sealba pode ser ainda fornecedor de sementes de soja para outras regiões do Brasil, pois é possível colher a soja destinada à semente no final de agosto até o começo de setembro, no momento em que os produtores das demais regiões do País precisam de sementes de boa qualidade. "Eles teriam uma semente recém colhida de alta qualidade fisiológica.Pode ser considerada um semente premium.

Há ganhos também no sentido inverso. A região do Sealba se beneficia das sementes disponíveis na pós-colheita do resto do País, que chega ‘fresquinha', no momento do plantio na região, em maio. O pesquisador ressalta que, para o cultivo da soja, isso é muito importante, pois ela tem em torno de 20% de teor de óleo e necessita de condições especiais de armazenamento, em temperatura baixa e, ainda assim, seu vigor pode diminuir ao longo do tempo. "Uma semente colhida em abril e plantada em maio é de altíssima qualidade fisiológica", diz o pesquisador.

ALIMENTAÇÃO ANIMAL

Pode-se destacar ainda a vantagem competitiva da proximidade com bacias leiteiras importantes como Batalha, em Alagoas, Nossa Senhora da Glória, em Sergipe e Garanhuns, em Pernambuco. Toda produção animal necessita de complemento energético, o milho, mas também de complemento proteico, a soja, que possui aproximadamente 40% de proteína. Hoje, o farelo de soja vem do Maranhão e do oeste da Bahia. Há também a produção de aves, que demanda farelo de soja, tanto em Sergipe como também em Alagoas, Pernambuco e Ceará. Para cada frango abatido, necessita-se em média de 3,4 kg de milho e 1,39 kg de farelo de soja.

Além disso, boa parte da produção de biodiesel no Brasil vem do óleo de soja, e existem duas empresas de beneficiamento do óleo próximas, uma em Candeias, na Bahia, e outra em Quixadá, no Ceará. "O produtor de soja do Sealba não vai depender de apenas um comprador. Ele terá um leque de opções", constata o pesquisador.

CONDIÇÕES DE PLANTIO

Há um "núcleo de chuva" com regularidade entre 10 de maio e 20 de agosto na região e a soja tem que ser posicionada dentro desse intervalo. Após três anos de ensaios, Sérgio Procópio acredita que o período de plantio tem que começar após 10 de maio, já que o enchimento dos grãos preferencialmente deve se encerrar em 20 de agosto. A colheita deve começar depois de 25 de agosto, para evitar problemas de chuva na colheita.

No Agreste é outra história. Em 2013, no campo experimental da Embrapa em Frei Paulo (SE), a produção variou de 4 a 5 mil quilos por hectare (a média nacional é de 3 mil kg/ha). "Há regiões no Sealba com solos muito ricos, como os municípios de Carira, Frei Paulo, Pinhão, Simão Dias, Paripiranga, Pedra Mole, Macambira e Ribeirópolis, além de alta fertilidade e temperatura noturna baixa. Com isso, a altura da planta chega a 90 cm, sendo que algumas cultivares chegam até a acamar.

É comum, entre os produtores de soja de outras regiões do País, dizerem que para uma boa produtividade é preciso chover mais de 400 mm. Mas pesquisas da Embrapa Tabuleiros Costeiros constataram que em algumas regiões do Sealba pode-se produzir soja com altas produtividades no outono-inverno com 300 mm de chuva, devido à menor evapotranspiração. "Não é uma soja de primavera-verão, onde a demanda hídrica é maior", constata o pesquisador.

GARGALOS

São muitas as vantagens para o plantio de soja no Sealba, mas o pesquisador Sérgio Procópio enumera também os gargalos. "Uma variedade de soja adaptada em Umbaúba (Tabuleiros) pode não ter boa adaptação para ser produzida em Frei Paulo (Agreste). São regiões próximas, mas com condições de clima e solo completamente diferentes. É preciso avaliar", adverte.

Ele explica que é preciso dividir o Sealba em duas regiões distintas: a dos Tabuleiros Costeiros e a do Agreste. O problema é que, em várias áreas dos Tabuleiros Costeiros, a presença de camada adensada, coesa, nos argissolos, aliada às precipitações intensas, dificulta a drenagem da água, podendo causar encharcamento superficial. "Isso é péssimo para a soja, aliás, para a maioria das culturas agrícolas", diz.

O encharcamento causa redução do crescimento das plantas, perda de produtividade, morte de raízes e das bactérias do gênero Rhizobium, que proveem a soja com nitrogênio. "O agricultor tem que escolher áreas com boa drenagem. Se não tem, é preciso realizar práticas mecânicas para quebrar essa compactação e facilitar a drenagem", recomenda Procópio.

O residual de herbicidas como o picloram, tebutiuron, amicabazone, entre outros, utilizado por pecuaristas e produtores de cana-de-açúcar também pode dificultar a atividade, pois é preciso esperar até três anos, dependendo do herbicida, para proceder ao cultivo de soja nessas áreas.

A falta de armazéns e secadoras na região pode se tornar um problema grave para o Sealba e deve ser enfrentado no curto e médio prazo. Para que a soja seja exportada, o grão deve ser entregue no porto com no máximo 14% de umidade.

ZONEAMENTO AGRÍCOLA

Recentemente foi publicada a portaria junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), contendo o Zoneamento de Risco Climático para a cultura da soja no Sealba. Fato muito relevante para o desenvolvimento da soja na região, pois é condição essencial para que o produtor possa obter empréstimo bancário, seguro rural e subvenções federais.

O Zoneamento é um instrumento elaborado a partir de metodologia definida pela Embrapa, com o objetivo de minimizar os riscos relacionados aos fenômenos climáticos e permite a cada município identificar as culturas e a melhor época de plantio, nos diferentes tipos de solos e ciclos de cultivares.

A pesquisadora Ana Gama, agrometeorologista da Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE) e integrante da equipe de Zoneamento da Embrapa, participou dos trabalhos de análise dos dados e parâmetros de clima e solo de cada município, além dos ciclos de cultivares de soja para os dois estados.

PRAGAS E DOENÇAS

A Embrapa realizou também levantamento das pragas que podem ocorrer na lavoura de soja, como lagartas, percevejos e coleópteros desfolhadores. Os pesquisadores identificaram todos os espécimes e vêm definindo as melhores formas de controle para a região.

O controle das pragas e doenças da soja já é bem conhecido entre os produtores tradicionais e pesquisadores recomendam o monitoramento constante das áreas de produção. "Deve-se evitar o uso de inseticidas que eliminam os inimigos naturais de pragas, como os piretroides", afirma o pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros Adenir Teodoro.

"Além disso, existem os produtos biológicos, como Baculovirus, Beauveria bassiana e Methariziumanisoplia. Outra alternativa é inundar o campo com inimigos naturais, como a minúscula vespaTrichogramma, que parasita os ovos das lagartas", complementa o pesquisador. Outro fator favorável ao cultivo da soja é a possibilidade de ser cultivada no sistema de plantio direto, evitando o revolvimento do solo e a utilização de arados e grades.

Fonte: Embrapa Tabuleiros Costeiros

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