Publicado em: 07/05/2026 às 11:15hs
As tensões geopolíticas globais, a desvalorização do dólar e o aumento dos custos de fertilizantes vêm redesenhando o mercado internacional de grãos e pressionando a rentabilidade do produtor rural brasileiro. O diagnóstico foi apresentado durante o ENSSOJA 2026 pelo sócio-diretor da Agroconsult, André Pessoa, que analisou os cenários para soja, milho e algodão nas safras 2026/2027.
Mesmo diante de uma produção recorde de soja no Brasil, o ambiente macroeconômico segue sendo determinante para a formação de preços e para o custo de produção no campo.
Segundo André Pessoa, parte da sustentação atual das cotações da soja não está ligada aos fundamentos tradicionais de oferta e demanda, mas sim a fatores macroeconômicos, especialmente o câmbio.
“A desvalorização do dólar promove uma inflação de commodities. Parte do preço que a soja tem hoje não é porque mudou a oferta e a demanda, mas porque o dólar se desvalorizou contra qualquer moeda”, afirmou durante o evento.
De acordo com a análise, caso o dólar tivesse hoje a mesma força registrada há um ano, os preços internacionais da soja precisariam recuar cerca de 10% para refletir o mesmo valor real.
Além do câmbio, os conflitos internacionais seguem adicionando volatilidade ao mercado agrícola global. As tensões envolvendo energia, logística e fertilizantes ampliam o grau de incerteza sobre o abastecimento mundial de commodities.
Esse ambiente reforça movimentos especulativos e influencia diretamente a precificação das commodities agrícolas, incluindo soja, milho e algodão.
No campo, o Brasil mantém trajetória de forte produção. Segundo os dados apresentados pela Agroconsult, o país cultivou cerca de 49 milhões de hectares de soja e deve colher aproximadamente 185 milhões de toneladas, com produtividade média próxima de 63 sacas por hectare.
Apesar do volume recorde, os estoques finais permaneceram historicamente apertados nos últimos anos, variando entre 5 e 7 milhões de toneladas na virada de safra.
Para o ciclo 2025/26, o cenário começa a mudar. Com o retorno mais forte dos Estados Unidos ao mercado global, a oferta internacional ganha fôlego, aumentando a competitividade no comércio mundial.
Ainda assim, o Brasil deve manter papel central nas exportações, com embarques estimados em pelo menos 112 milhões de toneladas e processamento interno acima de 61 milhões de toneladas.
A expectativa é de que o país encerre o ciclo com elevação dos estoques pela primeira vez em três a quatro anos.
Mesmo com a valorização das cotações internacionais em Chicago, o mercado interno brasileiro não acompanhou o movimento na mesma intensidade.
“Chicago subiu, mas o câmbio e o prêmio tiraram o que Chicago nos deu”, resumiu André Pessoa.
Em regiões produtoras como Sorriso (MT), os preços praticamente andaram de lado ao longo da safra, variando de cerca de R$ 101 para R$ 103 por saca.
Do lado dos custos, o produtor rural enfrenta nova pressão. A expectativa inicial era de alívio nos preços dos insumos com o dólar mais fraco. No entanto, a escalada dos conflitos no Oriente Médio acabou elevando os preços internacionais dos fertilizantes, neutralizando esse efeito.
Segundo a análise apresentada no ENSSOJA 2026, apenas os impactos dos conflitos já representam aumento equivalente a pelo menos 1,5 saca de soja por hectare no custo da próxima safra.
As relações de troca também pioraram em diversas regiões do país, exigindo de 3 a 6 sacas adicionais para aquisição dos mesmos insumos básicos da safra anterior.
Entre os fertilizantes, o fósforo foi apontado como um dos principais pontos de atenção, devido à dependência do enxofre em sua cadeia produtiva. O insumo, por sua vez, tem oferta global concentrada em regiões afetadas por instabilidades geopolíticas.
“O enxofre há dois ou três anos era menos de 100 dólares a tonelada. Hoje está em 1.000 dólares”, destacou o executivo.
Outro alerta envolve a mudança de postura das empresas fornecedoras de fertilizantes. Após prejuízos registrados em ciclos anteriores, especialmente durante a guerra da Ucrânia, muitas companhias passaram a operar com estoques reduzidos e compras apenas sob demanda já contratada.
Na prática, essa estratégia reduz a disponibilidade antecipada de insumos no mercado e aumenta os riscos logísticos para o produtor rural, especialmente em caso de atrasos nas negociações ou agravamento das tensões internacionais.
A leitura geral da Agroconsult aponta um ambiente de maior complexidade para o agronegócio brasileiro em 2026/2027, marcado por margens pressionadas, volatilidade cambial e custos elevados de produção, mesmo em um cenário de safras recordes e forte competitividade global.
Fonte: Portal do Agronegócio
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