Publicado em: 16/01/2026 às 11:50hs
Cientistas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) identificaram genes do cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum) associados à resistência e à suscetibilidade à vassoura-de-bruxa, uma das doenças mais devastadoras das culturas de cupuaçu e cacau.
O estudo inédito analisou como a planta reage nos estágios iniciais da infecção causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, responsável por grandes perdas na produção dessas culturas tropicais.
Conduzido pelas pesquisadoras Lucilia Helena Marcellino e Loeni Ludke Falcão, o estudo é o primeiro em larga escala sobre expressão gênica do cupuaçu. A análise foi realizada com base no sequenciamento de alta profundidade do transcritoma, que reúne todos os tipos de RNA produzidos pela planta.
Os cientistas focaram nas regiões meristemáticas, localizadas nas pontas dos galhos — justamente onde o fungo costuma atacar primeiro. Essa abordagem permitiu observar quais genes são ativados ou suprimidos durante o início da infecção.
Com o sequenciamento, foi possível criar um amplo banco de dados genético do cupuaçu, revelando milhares de genes expressos em plantas tanto resistentes quanto suscetíveis.
Segundo Marcellino, a análise bioinformática mostrou genes relacionados à resposta imune, ao metabolismo secundário e ao crescimento da planta.
Essas informações ajudam a compreender os mecanismos de defesa natural e podem orientar o desenvolvimento de novas estratégias de controle da doença, como fungicidas mais eficientes ou a criação de cultivares resistentes.
Os resultados do estudo abrem caminho para o uso de marcadores moleculares na seleção de plantas resistentes e para a identificação de genes de interesse econômico.
“Nosso trabalho oferece subsídios para que melhoristas desenvolvam variedades de cupuaçu mais resistentes à vassoura-de-bruxa e que mantenham boa produtividade e qualidade do fruto”, explica Falcão.
Alguns dos genes identificados já foram inseridos em plantas de tomate Micro-Tom, modelo usado em experimentos laboratoriais. Essa etapa permitirá avaliar como os genes atuam na resistência ao fungo e seu potencial uso em outras espécies.
Além do estudo genético, a equipe da Embrapa trabalha em parceria com a Embrapa Agricultura Digital (SP) na síntese de uma molécula que possa inibir o fungo, ao se ligar a uma proteína específica do microrganismo.
De acordo com Marcellino, o objetivo é desenvolver uma tecnologia eficaz contra duas pragas preocupantes: a Moniliophthora perniciosa e a Moniliophthora roreri, esta última classificada como praga quarentenária e já em processo de entrada no país.
Durante a infecção inicial, o fungo atua entre as células da planta, manipulando seu metabolismo para provocar crescimento anormal dos galhos, que se tornam vigorosos e ramificados — aparência que originou o nome “vassoura-de-bruxa”.
Com o avanço da doença, entre 30 e 60 dias, o galho infectado morre, mas não se desprende da planta, permitindo que o fungo continue se alimentando e espalhe seus esporos com a ajuda do vento.
Por se manter ativo na planta, o fungo enfrenta pouca concorrência de outros microrganismos, o que torna a doença difícil de controlar e exige manejo com poda fitossanitária, fungicidas e uso de plantas geneticamente resistentes.
A descoberta representa um avanço estratégico para a fruticultura amazônica, ao oferecer novas ferramentas para o melhoramento genético e para o controle sustentável de doenças.
“Entender os mecanismos moleculares de resistência é essencial para criar plantas que unam produtividade, qualidade de fruto e tolerância a patógenos”, destaca Marcellino.
Com o cupuaçu ganhando espaço na agroindústria e nas exportações, o estudo reforça o papel da ciência nacional na preservação e valorização das espécies nativas brasileiras.
Fonte: Portal do Agronegócio
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