Safra 2026/27: fertilizantes e defensivos elevam custos do milho a US$ 820 por hectare
Rabobank projeta despesas maiores para soja e milho no Brasil, com recuperação das margens operacionais; melhora na produção, porém, não garante alívio financeiro nas propriedades.
Publicado em: 21/10/2026 às 10:50hs
Os custos operacionais do milho brasileiro devem aumentar aproximadamente 11% na safra 2026/27, enquanto os da soja têm avanço estimado em 3,8%, segundo o Rabobank. Fertilizantes e defensivos estão entre os principais fatores de pressão, em um cenário de ampla oferta mundial de grãos e espaço limitado para altas sustentadas das commodities.
Apesar do encarecimento da produção, o banco prevê recuperação das margens operacionais das duas culturas no Brasil. O alerta está na diferença entre o desempenho da lavoura e a situação financeira do produtor: juros, endividamento e despesas com a terra não estão incluídos nesse indicador e continuam comprometendo o caixa de parte das propriedades.
As projeções integram o relatório Field Crop Margin Outlook 2027, publicado em outubro pelo RaboResearch Food & Agribusiness, área de pesquisa do Rabobank. O estudo aponta uma recuperação lenta e desigual das margens agrícolas entre os principais países produtores.
Custos do milho chegam a US$ 820 por hectare
Para o milho brasileiro, o Rabobank estima que os custos operacionais passem de US$ 739 por hectare em 2026 para US$ 820 por hectare na safra 2026/27.
Na soja, a projeção é de aumento de US$ 866 para US$ 899 por hectare, equivalente a 3,8%.
O avanço mais intenso no milho reflete, principalmente, despesas maiores com fertilizantes e defensivos. A pressão ocorre enquanto a elevada disponibilidade internacional de grãos e oleaginosas limita a recuperação dos preços agrícolas.
Defensivos e fertilizantes pesam no orçamento da nova safra
No milho, os gastos com fertilizantes devem passar de US$ 226 para US$ 248 por hectare, crescimento próximo de 10%. Já as despesas com defensivos estão projetadas em US$ 131 por hectare, ante US$ 96 no período anterior — aumento de cerca de 35%, conforme a estimativa apresentada no relatório.
O banco cita os inseticidas entre os componentes que pressionam o orçamento da cultura. Entretanto, a alta de 35% corresponde ao conjunto dos defensivos considerados no levantamento, e não apenas aos inseticidas.
Para a soja, as variações são mais moderadas. Os fertilizantes devem subir de US$ 284 para US$ 290 por hectare, enquanto os defensivos passam de US$ 292 para US$ 301 por hectare.
No mercado internacional de insumos, o relatório associa parte da pressão às tensões geopolíticas no Oriente Médio, que sustentam os preços de produtos como a ureia.
Margens operacionais de soja e milho devem melhorar
Mesmo com despesas maiores, o Rabobank projeta indicadores operacionais mais favoráveis para as duas culturas brasileiras em 2027, período correspondente à safra 2026/27 no calendário do Hemisfério Sul.
Na soja, a margem operacional deve avançar de 24% para 38%, aproximando-se da média histórica acompanhada pelo banco. No milho, a estimativa é de aumento de 46% para 55%, mantendo o indicador acima da média histórica.
Esses resultados colocam o Brasil em posição relativamente favorável na comparação com outros grandes produtores. A leitura, contudo, exige atenção aos custos contemplados pela metodologia.
Margem operacional não equivale a lucro líquido
O cálculo do RaboResearch considera a receita e determinados custos diretamente ligados ao cultivo, como fertilizantes, defensivos, sementes e combustíveis.
Juros, despesas financeiras, custos da terra e outros gastos ficam fora da conta, assim como eventuais subsídios governamentais.
Por isso, uma margem operacional de 55% no milho não significa lucro líquido de 55% sobre a receita. O resultado efetivo dependerá das demais despesas, das condições de financiamento e do desempenho produtivo e comercial de cada propriedade.
A distinção ajuda a explicar por que uma lavoura pode apresentar resultado operacional positivo enquanto o agricultor continua enfrentando dificuldades para cumprir obrigações financeiras.
Endividamento limita alívio no caixa dos produtores
Segundo o relatório, parte dos agricultores brasileiros ainda carrega dívidas associadas a investimentos realizados em ciclos anteriores. Com juros elevados e restrições de fluxo de caixa, o pagamento dessas obrigações absorve parte dos ganhos obtidos na produção.
O RaboResearch menciona indicadores regionais de inadimplência superiores a 8%. O percentual não representa uma taxa nacional de inadimplência do crédito rural.
Nesse ambiente, a melhora das margens operacionais pode ser insuficiente para recompor a capacidade financeira das propriedades. O pagamento de financiamentos, encargos e outras despesas continua determinante para a disponibilidade de recursos ao longo da safra.
Brasil apresenta cenário mais favorável que Estados Unidos
A comparação internacional mostra diferenças expressivas entre as projeções para 2027.
Nos Estados Unidos, a margem operacional da soja deve recuar de 18% para 15%. Para o milho, a previsão é de queda de 7% para apenas 3%.
O banco considera especialmente delicada a situação do milho norte-americano. Com um resultado operacional tão estreito, a inclusão dos demais custos pode levar a um resultado econômico negativo.
Na Argentina, a soja apresenta perspectiva de recuperação, com margem projetada de 21%, ante 9% em 2026, favorecida pela recuperação dos preços. No milho, porém, a estimativa recua de 26% para 23%, principalmente pela pressão dos fertilizantes. A carga tributária também aparece como desafio estrutural para os produtores argentinos.
O Brasil mantém margens operacionais superiores às dos dois países nas culturas analisadas, mas essa vantagem não incorpora o peso do financiamento e do endividamento.
Oferta global e clima condicionam recuperação em 2027
Para o Rabobank, a recuperação das margens agrícolas continuará dependente das condições climáticas, comerciais e geopolíticas.
A ampla oferta mundial tende a restringir valorizações prolongadas dos grãos, enquanto os preços dos insumos permanecem expostos às tensões internacionais.
O relatório também considera a continuidade do El Niño no primeiro semestre de 2027 uma fonte de incerteza para a produção. Eventuais perdas de oferta podem provocar altas pontuais, sem assegurar uma recuperação duradoura das cotações.
Para os produtores brasileiros, o desafio da safra 2026/27 será transformar margens operacionais melhores em recuperação financeira. Além da produtividade e do preço de venda, o resultado dependerá do controle dos custos totais e do comprometimento da receita com juros e dívidas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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