Publicado em: 12/03/2026 às 19:20hs
Uma possível alteração no regime de drawback estudada pelo Governo Federal tem gerado preocupação entre os agentes da cadeia produtiva do cacau. A proposta prevê a redução do prazo do mecanismo de até dois anos para apenas seis meses, o que pode comprometer a competitividade da indústria nacional de derivados no mercado internacional.
Segundo estimativas do setor, a mudança pode resultar em perda de até R$ 3,5 bilhões em exportações de derivados de cacau nos próximos cinco anos, além de colocar em risco mais de 5 mil empregos em diferentes etapas da cadeia produtiva.
O debate ocorre em um cenário em que a produção nacional de cacau não é suficiente para abastecer toda a capacidade da indústria brasileira de processamento.
Atualmente, cerca de 22% das amêndoas utilizadas no país são importadas, sendo que 99% dessas operações ocorrem por meio do regime de drawback, mecanismo que permite a suspensão de tributos sobre insumos importados destinados à produção de bens que serão exportados.
Sem esse instrumento, o setor avalia que a indústria nacional perde competitividade frente a outros países produtores e exportadores de derivados de cacau.
O drawback é um mecanismo amplamente utilizado no comércio internacional para estimular exportações industriais. O sistema permite suspender ou eliminar impostos incidentes sobre insumos importados que serão utilizados na fabricação de produtos destinados à exportação.
Essa política evita a cumulatividade de tributos ao longo da cadeia produtiva e contribui para que as empresas brasileiras possam competir em condições semelhantes às de outros países no mercado global.
De acordo com representantes do setor, reduzir o prazo do drawback para apenas seis meses criaria um descompasso entre as exigências fiscais e o funcionamento real da cadeia produtiva.
O processo de produção de derivados de cacau envolve diferentes etapas, que incluem:
Dados do setor indicam que 92% dos contratos internacionais de exportação possuem prazo superior a 180 dias, o que tornaria inviável o cumprimento das regras caso a mudança seja implementada.
Levantamento da Associação Nacional da Indústria Processadora de Cacau (AIPC) aponta que, caso a alteração seja confirmada, os impactos podem se intensificar ao longo dos próximos anos.
As projeções indicam que, em um horizonte de cinco anos, o setor pode enfrentar:
Além disso, a retração da atividade industrial pode provocar queda na demanda por cacau nacional, com redução estimada entre 40 mil e 80 mil toneladas no consumo interno da amêndoa.
A presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, afirma que mudanças estruturais nos custos da indústria podem gerar efeitos negativos em toda a cadeia produtiva.
Segundo ela, a indústria brasileira possui atualmente capacidade instalada para processar cerca de 275 mil toneladas de cacau por ano, mas em 2025 processou aproximadamente 195 mil toneladas, operando com quase 30% de ociosidade.
De acordo com Losi, alterações regulatórias sem base técnica e sem previsibilidade podem levar empresas a suspender investimentos ou redirecioná-los para outros mercados, como o Equador, que também atua fortemente na produção e exportação de cacau.
Estudo aponta impacto econômico e perda de empregos
Os possíveis efeitos da mudança também foram analisados no estudo “Cadeia de cacau no Brasil: Avaliação de impacto das medidas de proteção comercial”, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG).
A análise econômica indica que a medida pode resultar em:
Segundo o economista-chefe da FIEMG, João Gabriel Pio, os resultados apontam que o efeito geral da medida tende a ser negativo para a economia brasileira, uma vez que eleva custos e reduz a competitividade da indústria.
Para a AIPC, a recente queda nos preços do cacau exige políticas mais estruturais e construídas com diálogo entre governo, produtores e indústria.
A entidade defende alternativas como:
Segundo a associação, a indústria processadora pode desempenhar papel estratégico no fortalecimento da cadeia produtiva, desde que as decisões sejam baseadas em dados técnicos e diálogo institucional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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