Publicado em: 14/01/2026 às 16:00hs
O setor brasileiro de cacau encerrou 2025 em um cenário de queda expressiva na moagem e desaceleração na demanda por derivados, refletindo as dificuldades enfrentadas pela indústria diante de custos elevados e menor consumo interno.
Segundo dados do SindiDados – Campos Consultores, divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), foram processadas 195.882 toneladas no ano, queda de 14,6% em relação a 2024, quando o volume havia sido de 229.334 toneladas.
No quarto trimestre, a moagem totalizou 51.816 toneladas, recuo de 13,1% frente ao mesmo período do ano anterior.
De acordo com Anna Paula Losi, presidente-executiva da AIPC, a retração “reflete a redução da demanda por derivados, somada ao encarecimento da matéria-prima, o que impactou diretamente o ritmo de processamento da indústria”.
Apesar do recuo na moagem, o recebimento de amêndoas apresentou uma leve recuperação de 3,7% em 2025, totalizando 186.137 toneladas. O resultado, no entanto, ainda não foi suficiente para suprir a demanda industrial.
O destaque ficou com o último trimestre do ano, quando o volume recebido somou 59.737 toneladas, alta de 9,7% em relação ao mesmo período de 2024, sinalizando maior oferta de matéria-prima no fim do ano.
Por estado, a Bahia liderou as entregas, com crescimento de 5,7%, passando de 106,4 mil para 112,5 mil toneladas e ampliando sua participação nacional para 60,5%.
O Espírito Santo registrou um avanço expressivo, quase dobrando o volume de 5.968 para 10.054 toneladas, enquanto Rondônia cresceu 36,4%, com 1.795 toneladas.
Já o Pará teve retração de 6,3%, caindo para 61,5 mil toneladas, e reduzindo sua fatia de 36,6% para 33,1%.
A comercialização de derivados de cacau acompanhou o ritmo de retração industrial, caindo 18,4% em 2025 — uma queda ainda mais acentuada que a da moagem.
O volume total vendido passou de 177.669 toneladas (2024) para 144.932 toneladas (2025).
A redução foi observada em todas as categorias:
Esses números demonstram uma demanda doméstica enfraquecida, que levou as indústrias a operar abaixo da capacidade instalada.
No mercado externo, os resultados foram mistos. As importações de amêndoas subiram 65,2%, totalizando 42.143 toneladas em 2025. Entretanto, no quarto trimestre, os embarques foram zerados, reflexo da queda na demanda global e da normalização da oferta interna.
Segundo Anna Paula Losi, a indústria precisou importar mais no início do ano devido à safra fraca de 2024, mas a demanda enfraquecida no segundo semestre eliminou a necessidade de novos embarques.
As importações de derivados cresceram 4%, alcançando 42.844 toneladas, concentradas principalmente nos Estados Unidos e Países Baixos. O maior aumento foi registrado no cacau em pó e na pasta desengordurada, que tiveram alta de 5,8%, indicando demanda mais firme por produtos industriais.
Em contrapartida, as exportações de derivados mantiveram trajetória positiva, com alta de 5,4% no acumulado de 2025, somando 52.951 toneladas.
A Argentina se manteve como o principal destino das exportações brasileiras, com 21,3 mil toneladas (40%), seguida pelos Estados Unidos (18%) e Países Baixos (11%).
O desempenho foi favorecido pela retirada da tarifa adicional de 40% imposta pelos EUA, que havia limitado os embarques entre agosto e outubro.
Com o fim da tarifa em novembro, as exportações para o mercado norte-americano se recuperaram rapidamente, encerrando o ano com forte alta em dezembro, puxadas pela manteiga de cacau, que saltou de 222 para 760 toneladas exportadas.
“Apesar do impacto do tarifaço durante o segundo semestre, a remoção da sobretaxa permitiu uma recomposição significativa das vendas e melhor perspectiva para 2026”, destacou Anna Paula Losi.
De acordo com análise da consultoria StoneX, o mercado global de cacau entra em 2026 com expectativas moderadas, após forte ajuste de preços.
As cotações, que haviam superado US$ 12.000 por tonelada no fim de 2024, recuaram para cerca de US$ 5.000/t em dezembro de 2025.
O bom desempenho das safras na África Ocidental — especialmente na Costa do Marfim e em Gana — e a alta produção no Equador contribuíram para aumentar a oferta global.
O Equador registrou exportação recorde de 568 mil toneladas em 2024/25 e pode superar 600 mil toneladas na safra 2025/26, aproximando-se da segunda posição mundial.
Ainda assim, analistas alertam que o mercado segue vulnerável a mudanças climáticas e flutuações na demanda.
Com a curva de contratos futuros mais estável, o setor deve observar um período de preços mais baixos e margens estreitas até que o consumo global volte a se fortalecer.
Fonte: Portal do Agronegócio
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