Publicado em: 14/07/2016 às 14:45hs
"Considerando que, em espaçamento convencional, 25 gramas de sementes com boa germinação são suficientes para plantio de 1 hectare, o volume de sementes das cultivares de maracujazeiro azedo da Embrapa comercializados são suficientes para plantar mais de 8.000 ha, cerca de 15% da área nacional cultivada com maracujá", destaca a pesquisadora Keize Pereira Junqueira, da Embrapa Produtos e Mercados (Brasília, DF).
Segundo Keize Junqueira, esses valores são significativamente altos no cenário brasileiro de produção de maracujás, dado que a maior parte das sementes utilizadas nos plantios ainda é de origem genética desconhecida ou proveniente de populações geradas a partir de pomares instalados com as cultivares da Embrapa e de outros obtentores.
O reaproveitamento de sementes de cultivos anteriores é uma das razões apontadas pelo pesquisador Fábio Faleiro, da Embrapa Cerrados (Planaltina-DF), para a queda de produção do maracujá, cultura com grande amplitude nos níveis de produtividade. Enquanto a média de produtividade nacional é de 14 toneladas por hectare/ano, alguns produtores conseguem colher 50 toneladas por hectare com utilização de cultivares BRS, manejo e controle fitossanitário adequados.
"Temos produtores de maracujá BRS tanto em Roraima quanto no Rio Grande do Sul", salienta Faleiro. Para a tecnologia alcançar tamanha abrangência geográfica, o trabalho começa antes mesmo das cultivares serem lançadas no mercado. O programa de melhoramento genético dos maracujás da Embrapa tem unidades de validação em todas as regiões do País. Já na etapa de comercialização do BRS GA1 e BRS SC1, os licenciados têm pontos de venda em Brasília (DF), Araguari (MG) e Monte Mor (SP), mas o escritório paulista tem revendas em diversos estados.
"O envolvimento do licenciado aumenta a capilaridade da tecnologia", destaca Faleiro. A capacidade da tecnologia se propagar é incrementada também pela logística de baixa complexidade para envio das sementes e por ser uma tecnologia capaz de viabilizar economicamente a produção em pequenas áreas.
Cultivo orgânico do BRS Pérola do Cerrado incrementa renda
Para pequenos produtores, como o casal Pedro Malaquias, 64, e Dorvalina Teresa Soares, 57, do Assentamento Oziel Alves III (Núcleo Rural Pipiripau – DF), o cultivo do maracujá silvestre BRS Pérola do Cerrado incrementou a renda e resgatou a esperança de seguir a vida como produtores rurais.
"Com dinheiro do maracujá, já pago a prestação do trator e da rotativa", comenta Malaquias, mineiro de Paracatu que chegou a Brasília (DF) em 1971 para trabalhar na construção civil. A vida no campo teve início em 1974, como tratorista na Fazenda São Miguel, em Cabeceira de Goiás (GO). Naquela época, possuir o próprio trator e ter um pedaço de terra era sonho distante.
"Em 1983, comecei a plantar feijão, quiabo e milho numa chácara em Padre Bernardo (GO), mas faltava assistência técnica e tinha dificuldades de comercialização", lembra. Malaquias ainda permaneceu na Chácara até 2011, quando resolveu mudar-se para o Assentamento, que agrega 170 propriedades em área total de 2200 hectares.
Com apoio da Emater-DF e da ONG WWF-Brasil, via projeto Água Brasil, fez capacitação em agroecologia e hoje a produção do maracujá é orgânica. "Começamos com 100 mudas do Pérola do Cerrado no final de 2014, uns oito meses depois começamos a colher e hoje já temos 200 mudas", conta Dorvalina. "Nunca fiz aplicação de defensivos no pomar", ressalta.
O pequeno pomar do casal rende 5 caixas de 20 kg por semana. A produção é integralmente comercializada a distribuidores de produtos orgânicos. A rusticidade do maracujá silvestre facilita o cultivo orgânico e, além da elevada resistência a pragas e doenças, o fruto é valorizado pelo mercado para consumo in natura. "Está bem procurado, às vezes até falta pra vender. Quero plantar mais 400 pés e chegar a 1000", planeja Malaquias.
Para o zootecnista Maximiliano Cardoso, extensionista da Emater-DF, a organização dos produtores do Assentamento e dos Núcleos Rurais Pipiripau e Taquara na Associação de Orgânicos resultou em diversos impactos positivos nas propriedades. Todas as quartas-feiras uma parcela do Assentamento recebe o grupo de 28 associados para trocas de experiências e tomadas de iniciativa conjuntas.
Como resultado do associativismo, os produtores compartilham boas práticas como o uso do gotejamento para economizar água, produção de bokashi e cama de frango para adubação orgânica, e maior interação com extensionistas da Emater. "Eles (produtores) não são acomodados e essa organização melhora a condição de vida de todos", ressalta a economista doméstica Vera Oni, técnica da Emater-DF.
Os extensionistas e pesquisadores concordam que casos de sucesso, como o do casal Malaquias, são resultado da junção da vocação e trabalho dos produtores com a extensão rural e a pesquisa. "A interação produtor, extensão rural e pesquisa resulta em ganhos de produtividade e benefícios sociais", destaca Faleiro.
Aquisição de terra própria
A produtora Lucilia Neres Evangelista, de Planaltina de Goiás (GO), uma das pioneiras na validação das cultivares de maracujá BRS, deixou de ser meeira há 5 anos. A base da renda familiar é o pomar com 15 mil pés de maracujá com cultivares BRS.
"Quando comecei, não tinha nada. Meu primeiro pomar tinha 10 mil pés, mas como meeira. Mesmo vendendo barato, fui crescendo e juntei dinheiro para comprar terra própria", conta Lucilia.
Para aumentar a margem de lucro com a produção dos maracujás, a família Evangelista articula com a prefeitura a instalação de uma pequena agroindústria. "Pretendo vender polpa de maracujá. Meu sonho agora é ter minha agroindústria", comenta.
Onde encontrar sementes e mudas
As cultivares híbridas de maracujazeiro azedo da Embrapa já foram comercializadas em todos os estados do Brasil. De 2008 a 2015, o material mais vendido foi o BRS Gigante Amarelo, cultivar obtida pela Embrapa em parceria com a Universidade de Brasília. "A Bahia, estado com a maior produção de maracujá, foi uma das unidades da federação que mais adquiriram sementes da Embrapa e de seus licenciados", comenta Keize Junqueira.
A listagem dos produtores licenciados pela Embrapa para a produção de sementes e mudas das cultivares de maracujazeiro desenvolvidas pela Embrapa e parceiros está disponível em https://www.embrapa.br/produtos-e-mercado/maracuja.
Fonte: Embrapa
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