Deriva de herbicidas provoca prejuízo estimado de R$ 210 milhões à vitivinicultura do Rio Grande do Sul, revela estudo inédito
Pesquisa do Consevitis-RS aponta que a deriva de herbicidas hormonais deixou de ser um problema pontual e passou a ameaçar investimentos, produção de uvas, enoturismo e o crescimento da cadeia vitivinícola gaúcha.
Publicado em: 14/08/2026 às 14:00hs
A deriva de herbicidas hormonais já causou prejuízos estimados em R$ 210 milhões à vitivinicultura do Rio Grande do Sul entre 2018 e 2025, segundo um estudo inédito apresentado pelo Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS).
O levantamento, desenvolvido em parceria com a Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FEENG) e executado por pesquisadores do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Bento Gonçalves, é o primeiro a reunir dados oficiais, georreferenciamento, entrevistas com produtores e projeções econômicas para mensurar os impactos da deriva de herbicidas hormonais sobre a cadeia vitivinícola gaúcha.
O estudo conclui que o problema deixou de representar episódios isolados e passou a configurar um risco permanente para a produção de uvas e vinhos no Estado.
Prejuízos registrados chegam a R$ 161,6 milhões e perdas totais podem atingir R$ 210 milhões
A pesquisa identificou que os casos oficialmente registrados entre 2018 e 2025 geraram impactos econômicos diretos de R$ 161,6 milhões.
No entanto, ao incorporar estimativas relacionadas à redução da produtividade, aumento dos custos de manejo, necessidade de renovação dos vinhedos e demais perdas indiretas, o prejuízo total é projetado em aproximadamente R$ 210 milhões.
As projeções também preocupam o setor para os próximos anos. Caso o cenário permaneça sem mudanças significativas, os pesquisadores estimam que os danos econômicos possam somar mais R$ 150,1 milhões nos próximos cinco anos.
Mais de 400 ocorrências analisadas revelam dimensão do problema
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Termo de Colaboração FPE nº 4837/2022, firmado entre o Consevitis-RS e a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).
A coordenação científica ficou a cargo da professora doutora Shana Sabbado Flores, do professor doutor Leonardo Cury da Silva e do pesquisador Jorge Viel.
A metodologia integrou revisão bibliográfica, análise de registros oficiais, georreferenciamento das ocorrências, entrevistas com produtores e especialistas, além de projeções econômicas, estabelecendo uma base técnica inédita para avaliação dos impactos da deriva de herbicidas hormonais na vitivinicultura.
Durante o levantamento foram analisadas mais de 400 ocorrências oficiais registradas no Rio Grande do Sul.
Os pesquisadores estimam que aproximadamente 700 hectares de vinhedos tenham sido diretamente afetados pelos episódios de deriva no período analisado.
Entretanto, o número pode ser ainda maior, uma vez que muitas ocorrências não chegam a ser oficialmente registradas.
Regiões produtoras convivem com risco crescente
O estudo mostra que os impactos da deriva não estão distribuídos de forma uniforme.
As maiores concentrações de casos foram identificadas em regiões onde a vitivinicultura divide espaço com sistemas agrícolas extensivos que utilizam herbicidas hormonais.
Entre as áreas mais afetadas estão:
- Campanha Gaúcha;
- Região Central;
- Serra do Sudeste;
- Campos de Cima da Serra;
- Planalto;
- Missões;
- Serra Gaúcha, com registros mais pontuais.
Segundo os pesquisadores, essa convivência entre diferentes sistemas produtivos amplia o risco de novos episódios e exige maior integração entre os diversos segmentos do agronegócio.
Deriva compromete investimentos e reduz competitividade da cadeia
Além das perdas diretas na produção de uvas, o levantamento demonstra que a deriva passou a influenciar decisões estratégicas dentro das propriedades rurais.
Os efeitos atingem investimentos em renovação dos vinhedos, expansão das áreas cultivadas, desenvolvimento de novos produtos, fortalecimento do enoturismo e iniciativas coletivas de valorização regional, como projetos de indicação geográfica.
Um dos dados mais relevantes da pesquisa mostra que todos os produtores entrevistados afirmaram ter reduzido ou adiado investimentos devido à recorrência dos episódios e à insegurança em relação à ocorrência de novos casos.
Esse comportamento tende a reduzir a competitividade da vitivinicultura gaúcha no médio e longo prazo.
Estudo transforma percepção dos produtores em evidência técnica
Para a coordenadora da pesquisa, Shana Sabbado Flores, o trabalho representa um avanço importante na compreensão do problema.
Segundo a pesquisadora, os relatos dos viticultores já indicavam os prejuízos provocados pela deriva, mas o estudo permitiu transformar essa percepção em dados científicos, reunindo informações oficiais, análises territoriais e projeções econômicas capazes de demonstrar os impactos sobre toda a cadeia produtiva.
Setor busca soluções para preservar a vitivinicultura
O presidente do Consevitis-RS, Maicon Galiotto, destaca que conhecer a dimensão econômica do problema é fundamental para orientar políticas públicas e fortalecer o diálogo entre os diferentes segmentos do agronegócio.
Segundo ele, a pesquisa fornece uma base técnica qualificada para apoiar decisões que permitam preservar o desenvolvimento da vitivinicultura gaúcha, promovendo a convivência equilibrada entre a produção de uvas e as demais atividades agrícolas desenvolvidas no Estado.
Desafio envolve produção, sustentabilidade e desenvolvimento regional
O estudo reforça que a deriva de herbicidas hormonais deixou de ser uma questão exclusivamente agronômica para se tornar um desafio econômico, ambiental e estratégico para o agronegócio gaúcho.
Além dos impactos sobre a produção de uvas e vinhos, os prejuízos afetam a geração de renda, o turismo, a valorização territorial e os investimentos privados, tornando indispensável a adoção de medidas capazes de reduzir a ocorrência da deriva e garantir maior segurança para todos os segmentos da produção agrícola.
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Fonte: Portal do Agronegócio
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