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Flores

Floricultura brasileira avança em rastreabilidade, mas origem das flores ainda é invisível ao consumidor

Setor movimenta mais de R$ 23 bilhões no Brasil, mas ainda enfrenta baixa percepção de origem, enquanto modelo de licenciamento e proteção de cultivares ganha força na cadeia produtiva


Publicado em: 10/07/2026 às 10:00hs

Floricultura brasileira avança em rastreabilidade, mas origem das flores ainda é invisível ao consumidor

O mercado de flores no Brasil movimentou cerca de R$ 23,3 bilhões em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor). Apesar do volume expressivo, a cadeia de origem das flores ainda é pouco conhecida pelo consumidor final, diferentemente de outros segmentos do agronegócio, como café especial e vinhos, onde a procedência é um importante diferencial de valor.

No varejo, seja em supermercados, floriculturas ou eventos, raramente o comprador sabe de onde vêm as variedades que consome, quem as desenvolveu ou quais direitos de propriedade intelectual estão envolvidos na sua produção.

Breeders são responsáveis pelo desenvolvimento genético das flores

Por trás de cada variedade comercializada no mundo está o trabalho de empresas conhecidas como breeders, responsáveis pelo melhoramento genético das flores. Essas companhias investem décadas em pesquisa e desenvolvimento para criar novas cultivares com características como coloração, durabilidade pós-colheita, resistência a pragas e estrutura de haste.

Concentrados principalmente em países como Holanda, Itália e Alemanha, os breeders operam sob um modelo de proteção de propriedade intelectual semelhante ao utilizado em softwares e cultivares agrícolas.

No Brasil, o sistema é regulamentado pela Lei de Proteção de Cultivares (Lei nº 9.456/1997) e administrado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Para produzir legalmente variedades protegidas, os produtores precisam firmar contratos formais e pagar royalties por volume cultivado.

Processo de desenvolvimento pode levar mais de uma década

Segundo Paco van de Louw, diretor da Könst Alstroemeria, empresa holandesa com oito décadas dedicadas ao melhoramento genético da espécie, o desenvolvimento de uma nova variedade pode levar de 10 a 12 anos.

Durante esse período, milhares de cruzamentos são realizados, mas apenas uma fração mínima chega ao mercado — cerca de 0,1% do total.

O executivo destaca ainda que um dos principais desafios do setor é manter o cumprimento do sistema de licenciamento em toda a cadeia produtiva.

“O maior desafio é manter o sistema funcionando para todos. Fiscalizamos os sítios dos clientes e temos cooperação com cooperativas e centros comerciais para detectar a produção ilegal das nossas variedades”, afirma.

Segundo ele, ainda existe uma percepção equivocada de que os royalties representam apenas custo adicional, quando na prática sustentam toda a estrutura de pesquisa e inovação do setor.

Alstroemeria no Brasil: evolução com base em licenciamento

A alstroemeria é um dos principais exemplos da evolução do modelo de flores licenciadas no Brasil. O produtor Pedro De Wit, cooperado da Cooperflora, em Holambra (SP), foi um dos pioneiros na adoção formal de cultivares protegidas no país.

Nos anos 1990, quando a flor ainda era pouco difundida no mercado brasileiro, ele iniciou parcerias com breeders internacionais e passou a operar com pagamento de royalties, em um cenário que, segundo ele, ainda enfrentava forte informalidade.

“No início, ser tomado a sério era difícil. O mercado brasileiro era muito conhecido internacionalmente como um mercado com alta taxa de pirataria”, afirma De Wit.

Com o tempo, a adaptação ao modelo de licenciamento permitiu a consolidação da produção nacional. Hoje, a Cooperflora reúne 16 produtores especializados na espécie, em Jaguariúna (SP), com um portfólio superior a 80 variedades licenciadas.

A evolução genética também é destacada pelo setor: flores que antes apresentavam 4 a 5 centímetros de diâmetro hoje chegam a até 8 centímetros, com maior uniformidade, coloração mais estável e maior produtividade por haste.

“Sem o desenvolvimento conjunto de variedades adaptadas ao clima brasileiro, muito provavelmente o produto ainda seria sazonal no país”, avalia De Wit.

Irregularidades no uso de cultivares impactam toda a cadeia

O cultivo de variedades protegidas sem contrato formal configura infração legal e gera impactos em toda a cadeia produtiva. Enquanto os breeders deixam de ser remunerados pelo desenvolvimento genético, produtores irregulares conseguem operar com custos menores, o que distorce a concorrência no mercado.

“O trabalho irregular acaba custando menos e, apesar da perda de qualidade, impacta nos segmentos mais especulativos e na comercialização informal sem tributação”, explica Francisco Silva, responsável pela área comercial da Cooperflora.

Rastreabilidade e profissionalização ganham espaço no setor

Nos últimos anos, o setor de flores tem avançado em profissionalização e rastreabilidade, com maior controle sobre origem e conformidade das variedades comercializadas.

A Cooperflora adota contratos formais de licenciamento para todas as espécies do portfólio e utiliza padrões internacionais de rastreabilidade, como o sistema GS1, que permite identificar a origem das flores até o ponto de venda.

Segundo Francisco Silva, o comportamento do consumidor também vem mudando, especialmente nas classes A, B e C, onde há maior valorização da procedência.

“O interesse pelo que se consome tem se tornado cada vez mais relevante e fator decisório na compra”, afirma.

Origem como diferencial de valor na floricultura

A evolução do mercado brasileiro de flores segue uma tendência já observada em outros segmentos do agronegócio, como café especial e vinhos, nos quais a origem passou a ser um elemento central de valorização do produto.

No caso da floricultura, especialistas avaliam que a rastreabilidade e o reconhecimento dos breeders tendem a se consolidar como fatores estratégicos, diferenciando produtos e fortalecendo a cadeia formal.

Mais do que um detalhe técnico, a origem das flores começa a se tornar um componente essencial de valor — e um dos próximos passos na profissionalização do setor no Brasil.

Fonte: Portal do Agronegócio

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