Publicado em: 29/01/2026 às 13:30hs
Uma pesquisa da Embrapa Arroz e Feijão revelou que o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio associadas a microrganismos promotores de crescimento vegetal pode reduzir em até 50% as emissões de óxido nitroso (N₂O) em lavouras de feijão-carioca no Cerrado, quando comparado ao uso de ureia — fertilizante nitrogenado amplamente empregado na agricultura.
O óxido nitroso é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento global muito superior ao dióxido de carbono (CO₂) e com vida útil mais longa que o metano (CH₄).
O estudo foi conduzido na Fazenda Capivara, em Santo Antônio de Goiás (GO), onde há 20 anos se pratica o sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), com o cultivo alternado de braquiária e grãos em plantio direto.
Os experimentos realizados nas safras 2019/2020 e 2021/2022 compararam o uso convencional de ureia (200 a 280 kg/ha) com a coinoculação — técnica que combina bactérias de diferentes espécies para potencializar a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN).
As misturas incluíram Rhizobium tropici, Rhizobium freirei e Azospirillum brasilense, esta última aplicada sobre o solo e as plantas para estimular a produção de ácido indol acético, hormônio natural que favorece o crescimento radicular.
De acordo com a pesquisadora Márcia Thaís de Melo Carvalho, coordenadora do estudo, as lavouras que receberam coinoculação emitiram até 50% menos N₂O do que aquelas adubadas com ureia:
“A emissão total foi de 0,208 kg/ha no feijão coinoculado, contra 0,404 kg/ha no cultivo com ureia”, detalhou a pesquisadora.
Além da redução nas emissões, o sistema não comprometeu o desempenho produtivo. A produtividade média das áreas coinoculadas foi de 3,2 mil quilos por hectare, quase três vezes superior à média nacional (1,1 mil kg/ha).
Márcia Thaís destaca que a prática diminui a dependência de fertilizantes sintéticos caros e reduz o impacto climático e ambiental da produção agrícola.
A técnica de coinoculação com rizóbios e Azospirillum não é totalmente inédita, mas o estudo da Embrapa é um dos poucos realizados em ambientes de ILP consolidados, típicos do Cerrado.
Segundo Márcia Thaís, o objetivo foi entender não apenas a emissão de gases, mas também as transformações no solo e na microbiota associada às raízes do feijoeiro.
Os resultados mostram que sistemas agrícolas integrados e de longo prazo — como o da Fazenda Capivara — apresentam solos mais ricos em matéria orgânica e melhor equilíbrio biológico, o que favorece a fixação de nitrogênio natural e reduz a necessidade de adubação química.
“A sinergia entre qualidade do solo, microrganismos e práticas conservacionistas aumenta a eficiência no uso da água e dos nutrientes, melhora a resiliência das lavouras e contribui para uma agricultura de baixa emissão de carbono no Cerrado brasileiro”, ressalta a pesquisadora.
O avanço das pesquisas com bioinsumos e inoculantes vem ganhando força no Brasil como alternativa aos fertilizantes químicos.
Na Embrapa Soja (PR), estudos com Azospirillum brasilense em gramíneas como o milho mostraram ganhos de até 25% na eficiência do uso de nitrogênio. Segundo o pesquisador Marco Nogueira, o microrganismo estimula o crescimento radicular, permitindo maior aproveitamento de água e nutrientes, além de aumentar a produtividade sem elevar os custos de adubação.
Já o pesquisador Rodrigo Garcia, da Embrapa Agropecuária Oeste (MS), destaca que o uso de bioinsumos aliados a práticas conservacionistas, como plantio direto e rotação de culturas em sistemas integrados (ILP e ILPF), amplia a sustentabilidade e a saúde do solo.
“Essas técnicas melhoram a eficiência no uso de recursos naturais e fortalecem o caminho para uma agricultura regenerativa e de baixo carbono”, afirma Garcia.
Mesmo nas áreas tratadas com ureia, o fator de emissão de óxido nitroso ficou entre 0,1% e 0,4%, índice inferior ao limite de 1% recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) para solos tropicais.
O dado reforça o potencial do manejo integrado e do uso de microrganismos para cumprir metas de mitigação climática sem comprometer a produtividade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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