Trigo: chuvas ameaçam qualidade no Brasil e oferta global mais ajustada sustenta preços, aponta Itaú BBA
Colheita brasileira alcança 40,3%, mas umidade no Sul preocupa moinhos; perspectiva de boa safra argentina pode conter pressão de alta no mercado doméstico
Publicado em: 19/10/2026 às 17:00hs
O mercado de trigo combina riscos à qualidade da safra brasileira com um cenário internacional de menor folga entre produção e consumo. Segundo o Agro Mensal de outubro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, as chuvas frequentes no Sul aumentam as preocupações com o padrão industrial dos grãos, enquanto dificuldades logísticas no Mar Negro acrescentam volatilidade às cotações.
No Brasil, a colheita atingia 40,3% da área, conforme os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apresentados no relatório, com acompanhamento até 9 de outubro. O principal ponto de atenção é a capacidade de o cereal colhido atender às especificações exigidas pelos moinhos.
Embora esse quadro possa valorizar os lotes de melhor qualidade, a expectativa de boa produção na Argentina amplia as alternativas de abastecimento da indústria brasileira e pode limitar parte da pressão altista.
Excesso de umidade coloca qualidade do trigo no centro das negociações
As condições climáticas no Sul têm favorecido doenças de espiga e aumentado as incertezas sobre características relevantes para a moagem, como peso hectolítrico (PH), germinação e força de glúten.
Segundo o Itaú BBA, o risco não se limita ao volume produzido. Mesmo com disponibilidade de cereal, eventuais perdas qualitativas podem reduzir a oferta de trigo adequado às necessidades da indústria.
Caso esse cenário se confirme, os moinhos poderão intensificar a disputa pelos lotes de melhor padrão, ampliando os prêmios pagos pela qualidade.
Rio Grande do Sul atravessa fases críticas das lavouras
No Rio Grande do Sul, a colheita estava no início no período analisado, enquanto a maior parte das lavouras se encontrava em enchimento de grãos e maturação.
Essas etapas são importantes para a definição do rendimento. A combinação de baixa radiação solar e volumes elevados de chuva favorece doenças de espiga e mantém a atenção sobre o resultado da safra.
Em Santa Catarina, as áreas mais adiantadas começavam a ser colhidas, também sob risco associado ao excesso de chuva e à umidade elevada.
Paraná tem colheita mais avançada, mas depende de tempo seco
No Paraná, os trabalhos estavam mais adiantados e a maior parte das lavouras apresentava boas condições. Ainda assim, a continuidade da colheita dependia de períodos de tempo seco.
Em São Paulo, as condições climáticas atrasaram as operações em relação à temporada anterior. Já em Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, a colheita havia sido concluída.
O quadro nacional reunia, portanto, regiões com trabalhos encerrados e áreas do Sul ainda expostas às condições meteorológicas durante fases decisivas da produção.
Restrições no Mar Negro aumentam volatilidade internacional
No exterior, o trigo apresentou oscilações nos 30 dias acompanhados pelo relatório. O cereal do tipo soft em Chicago encerrou o período a 671 centavos de dólar por bushel.
A escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia ampliou as incertezas sobre o escoamento da produção de uma região importante para o abastecimento mundial.
Segundo a análise, a Rússia dispõe de trigo, mas as dificuldades logísticas limitaram os embarques e contribuíram para elevar preços em outras origens. Alternativas de saída pelo Báltico ajudaram a corrigir as cotações, sem representar normalização dos fluxos pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov.
Produção abaixo do consumo reduz folga mundial
Para a temporada 2026/27, o Itaú BBA aponta um balanço global mais ajustado como fator de sustentação dos preços.
Após duas safras de maior oferta, a produção perde força em importantes países exportadores e fica abaixo do consumo estimado, reduzindo a disponibilidade excedente no mercado mundial.
As restrições logísticas na região do Mar Negro reforçam a sensibilidade das cotações. Mesmo com rotas alternativas, a evolução dos embarques de Rússia e Ucrânia continuará relevante para o comércio internacional.
Safra argentina amplia opções para os moinhos brasileiros
Na Argentina, principal fornecedora de trigo ao Brasil, as condições das lavouras sustentam a expectativa de boa produtividade e elevada disponibilidade para exportação.
No início de outubro, 91% da área apresentava condição hídrica adequada ou ótima, enquanto 64% das lavouras estavam classificadas como boas ou excelentes.
Para os compradores brasileiros, essa perspectiva representa uma alternativa de abastecimento e pode conter parte dos efeitos de um mercado internacional mais firme.
Nos próximos meses, a formação dos preços domésticos deverá refletir essa combinação: disponibilidade argentina, evolução das cotações externas e quantidade de trigo brasileiro capaz de atender às exigências da indústria moageira.
Fonte: Portal do Agronegócio
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