Trigo brasileiro: margens apertadas reforçam importância da produtividade e da qualidade
Custos elevados, redução de área e riscos climáticos desafiam produtores; manejo integrado e eficiência nutricional são apontados como caminhos para fortalecer a competitividade da cultura
Publicado em: 06/10/2026 às 16:00hs
A competitividade do trigo brasileiro depende de ganhos de produtividade acompanhados da preservação da qualidade dos grãos. Em um cenário de margens estreitas, disputa por área com outras culturas e riscos climáticos, colher mais por hectare precisa resultar também em matéria-prima que atenda às exigências da indústria.
A avaliação é de Diego Guterres, especialista agronômico da Yara Brasil. Em artigo sobre os desafios da triticultura, ele destaca que o país ainda depende de importações para abastecer o mercado interno, apesar da importância do cereal na fabricação de pães, massas e biscoitos.
Segundo os dados apresentados pelo especialista, a produção brasileira está estimada em cerca de 5,8 milhões de toneladas em 2026, e o Brasil ocupa a posição de quinto maior importador mundial de trigo.
Custos elevados e competição reduzem espaço do trigo
A proximidade entre os preços recebidos e os custos de produção limita a rentabilidade da cultura. No Paraná, conforme os valores citados por Guterres, a saca ultrapassou R$ 78, enquanto o custo operacional estimado chega a R$ 77.
O artigo também aponta redução de 30% na área plantada no Rio Grande do Sul e de 11% no Paraná. Além da pressão financeira, o trigo enfrenta a concorrência de alternativas como milho safrinha, cevada e canola.
Para o especialista, esse contexto mostra que ampliar a oferta nacional exige mais do que expandir a área. O aproveitamento do potencial de cada hectare ganha importância diante da competição por terra e capital.
Chuvas podem comprometer a qualidade industrial dos grãos
A concentração das lavouras na região Sul torna o comportamento do clima um fator decisivo. Guterres chama a atenção para os riscos de chuvas mais intensas na janela de colheita e do excesso de umidade durante a fase reprodutiva.
Essas condições favorecem doenças como a giberela e podem provocar a germinação dos grãos ainda na espiga. O problema compromete características exigidas pela indústria de panificação e pode levar ao direcionamento do trigo para ração animal, com depreciação comercial.
Assim, uma lavoura pode manter parte expressiva do volume produzido e, mesmo assim, sofrer perda de valor. A proteção da qualidade industrial precisa acompanhar as estratégias voltadas à produtividade.
Manejo nutricional começa pelo diagnóstico da lavoura
Genética, clima, controle fitossanitário e nutrição interagem na formação do rendimento e da qualidade do trigo. No caso da adubação, o especialista defende um planejamento baseado nas condições de cada área.
Análise de solo, histórico da lavoura, potencial da cultivar e expectativa de rendimento são informações que ajudam a definir a estratégia nutricional. A eficiência depende da escolha dos nutrientes, das fontes, das doses e dos momentos de aplicação.
O nitrogênio tem papel central no desenvolvimento da cultura, mas seu aproveitamento deve ser considerado em conjunto com os demais nutrientes. O equilíbrio nutricional contribui tanto para o crescimento das plantas quanto para os componentes associados à qualidade dos grãos.
Guterres também menciona estratégias que combinam nutrientes e fontes de matriz orgânica no tratamento de sementes e em aplicações foliares. Segundo ele, essas ferramentas podem favorecer o desempenho em condições adequadas e auxiliar a cultura em situações de estresse.
Avaliações apontam potencial de ganho de até 12 sacas por hectare
O artigo relata avaliações conduzidas por uma empresa do segmento de fertilizantes nas quais estratégias integradas de nutrição apresentaram ganhos de produtividade. Em uma das condições estudadas, o incremento chegou a 12 sacas por hectare.
O resultado indica potencial de resposta ao manejo nutricional, mas está associado às condições específicas da avaliação e não representa um ganho uniforme para todas as lavouras.
Na dimensão ambiental, Guterres cita comparações da literatura que apontam redução de 14% a 15% na pegada de carbono por hectare de trigo em determinadas estratégias de fertilização, frente a sistemas convencionais de adubação.
Esses resultados reforçam, na análise do especialista, a importância de combinar desempenho produtivo e uso eficiente dos recursos.
Rotação de culturas amplia importância do trigo no sistema produtivo
A contribuição do trigo também deve ser observada dentro do planejamento da propriedade. No Sul, o cereal integra a rotação com soja, milho e plantas de cobertura e participa da intensificação dos sistemas de plantio direto.
Por isso, Guterres defende que a avaliação econômica considere a contribuição de cada cultura para o conjunto do sistema, além do resultado de uma safra isolada.
Os avanços em genética e manejo têm permitido ampliar o cultivo para diferentes regiões brasileiras. Para consolidar essa expansão, o especialista aponta a produtividade, a qualidade industrial e a eficiência nutricional como fatores essenciais para rentabilizar a área cultivada e fortalecer a produção nacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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