Clima reduz safra de trigo no Brasil e pode elevar importações para perto de 9 milhões de toneladas
Apesar dos avanços na qualidade do trigo paulista, perdas na produção nacional aumentam a preocupação com o abastecimento dos moinhos; Argentina e Paraguai seguem entre os fornecedores estratégicos.
Publicado em: 28/09/2026 às 17:00hs
O Brasil poderá precisar importar quase 9 milhões de toneladas de trigo neste ciclo, acima da estimativa inicial de 7,5 milhões de toneladas. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira do Trigo (Abitrigo), Daniel Kümmel, que atribui a revisão às perdas climáticas na safra nacional e ao volume da produção que já estaria comprometido.
A perspectiva foi apresentada no 11º Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo de São Paulo, realizado em 24 de setembro, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O evento reuniu produtores, representantes dos moinhos e especialistas para discutir a safra, o abastecimento e as decisões que poderão afetar o setor em 2027.
Qualidade do trigo paulista avança, mas setembro prejudica a safra
São Paulo vinha ampliando a produção de trigo e melhorando a qualidade do cereal, segundo representantes da cadeia reunidos no encontro. As condições climáticas adversas de setembro, porém, trouxeram perdas e incertezas para a safra atual.
O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), Max Piermartiri, afirmou que o planejamento do próximo ciclo terá de considerar tanto os efeitos do clima quanto o ambiente econômico e político. Para os moinhos paulistas, a oferta regional tem importância adicional pela proximidade das áreas produtoras e pelas características do grão.
Ruy Zanardi, presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, afirmou que o estado tem capacidade para produzir 800 mil toneladas do cereal e destacou o tamanho do mercado consumidor paulista. Segundo ele, o trigo colhido no estado no ano passado apresentou qualidade excepcional, resultado que reforça o potencial da produção local apesar das dificuldades desta temporada.
Abastecimento deve exigir mais trigo importado
A produção brasileira de trigo foi estimada em 5,7 milhões de toneladas durante o encontro. Diante das perdas relatadas no campo, Kümmel avaliou que as compras externas poderão superar o volume inicialmente previsto e se aproximar de 9 milhões de toneladas.
Para o dirigente da Abitrigo, o trigo cultivado em São Paulo e o cereal importado desempenham papéis complementares no abastecimento da indústria. Argentina e Paraguai devem permanecer entre os fornecedores relevantes para os moinhos paulistas.
As projeções ainda dependem da consolidação dos resultados da safra e da efetiva disponibilidade de trigo para venda. Por isso, o volume final de importações poderá mudar conforme avancem a colheita e a comercialização.
Economia, tributos e cenário externo entram no planejamento
Além da produção, o setor acompanha a reforma tributária, o câmbio e as escolhas de política econômica para 2027. O secretário-executivo de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Diogenes Kassaoka, defendeu maior diálogo entre a cadeia produtiva e o governo estadual, especialmente sobre diferenças tributárias que afetam a atividade.
No debate sobre o mercado internacional, especialistas também apontaram a Rússia como um fator de atenção. Dificuldades logísticas podem limitar temporariamente as exportações do país; caso volumes retidos voltem ao mercado posteriormente, a oferta poderá influenciar os preços internacionais.
Argentina projeta oferta exportável superior a 16 milhões de toneladas
A safra argentina 2026/27 também esteve no centro das discussões. Gabriel Gavarrino, representante da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais da Argentina, apresentou um cenário com 22 milhões de toneladas de produção e 4,5 milhões de toneladas de estoques de passagem. Descontado um consumo interno estimado em 8 milhões de toneladas, o saldo disponível para outros usos, incluindo exportações, poderia superar 16 milhões de toneladas.
Gavarrino abordou ainda uma norma argentina de controle varietal do trigo em cargas transportadas por caminhão. A identificação das cultivares poderá permitir contratos mais específicos entre compradores e vendedores, com possíveis efeitos sobre a forma de comercialização do cereal destinado à indústria.
Fonte: Portal do Agronegócio
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