Aveia, Trigo e Cevada

Cenário do Trigo no Brasil em 2026: Pressões de Oferta, Importações e Efeitos na Política Monetária

Safra menor, concorrência argentina e mercado internacional moldam o futuro do trigo brasileiro


Publicado em: 19/02/2026 às 11:10hs

Cenário do Trigo no Brasil em 2026: Pressões de Oferta, Importações e Efeitos na Política Monetária
Foto: Gilson Abreu

A produção nacional de trigo enfrenta um cenário desafiador em 2026, marcado pela redução da área plantada, retração na produtividade e pressão de preços internacionais. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve colher 6,9 milhões de toneladas neste ano, queda de 12,3% em relação a 2025, reflexo de condições climáticas adversas e da desvalorização do cereal no mercado interno. A produtividade média está estimada em 2,978 toneladas por hectare, recuo de 7,5%, enquanto a área cultivada deve diminuir 5,2%, para 2,318 milhões de hectares.

De acordo com o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), os preços do trigo se mantêm estáveis, mas as negociações seguem lentas devido à dificuldade de acordo entre produtores e indústrias. Nos derivados, as farinhas continuam em queda e o farelo apresenta leve recuo após semanas de valorização.

Mercado do Sul opera com cautela e foco na qualidade do produto

Nas regiões produtoras do Sul do país, o mercado de trigo segue cauteloso, com negociações pontuais e foco na qualidade dos lotes. No Rio Grande do Sul, os contratos mais expressivos foram fechados para embarques entre abril e maio, período tradicionalmente mais valorizado. Os preços variam entre R$ 1.150 e R$ 1.250 por tonelada, dependendo das condições comerciais.

Os moinhos relatam limitação de espaço para armazenagem, o que reduz o ritmo de compras. O trigo importado, especialmente o argentino e o paraguaio, tem se mostrado mais competitivo e pressionado as cotações internas.

Em Santa Catarina, o produto local enfrenta maior dificuldade de comercialização frente à concorrência do trigo gaúcho e paraguaio. No Paraná, a oferta interna é reduzida, e há preocupação com a qualidade dos grãos importados, principalmente da Argentina.

Argentina registra safra recorde e amplia influência global no mercado de trigo

A Argentina iniciou a temporada 2025/26 com exportações históricas, consolidando-se como um dos principais fornecedores de trigo no mercado mundial. Segundo a Bolsa de Comércio de Rosário (BCR), o país já exportou 9,4 milhões de toneladas nos primeiros meses da campanha, 87% acima da média dos últimos cinco anos. A produção total, somando estoques e colheita, alcança 31,1 milhões de toneladas, um volume 50% superior à média da última década.

Com preços FOB altamente competitivos, o trigo argentino ampliou sua presença em destinos como Vietnã, Indonésia, Bangladesh, Argélia e Marrocos, e mantém o Brasil como um dos principais compradores, com aproximadamente 1 milhão de toneladas importadas até o momento. A isenção tarifária no âmbito do Mercosul e a proximidade logística tornam o cereal argentino especialmente atrativo para os moinhos brasileiros.

Esse cenário pressiona o mercado interno e limita a valorização do trigo nacional, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. A ampla oferta argentina atua como um “freio” para as cotações internacionais, favorecendo a indústria moageira e controlando custos na cadeia de alimentos.

Mercado internacional reage ao clima e às tensões no Mar Negro

As bolsas internacionais de commodities registraram altas recentes nos contratos de trigo, impulsionadas por preocupações climáticas e pelo agravamento das tensões geopolíticas entre Rússia e Ucrânia. Em Chicago (CBOT), os contratos futuros encerraram a última sessão em forte alta, com o trigo para entrega em maio de 2026 cotado a US$ 5,52 por bushel, avanço de 1,84% em relação ao pregão anterior.

A formação de gelo nas lavouras de inverno no Leste Europeu e a ausência de avanços nas negociações de paz sustentaram o movimento de recuperação técnica dos preços. Ainda assim, a ampla oferta global e os estoques elevados nos principais exportadores limitam o potencial de altas mais significativas no curto prazo.

Inflação e política monetária: Banco Central mantém atenção sobre preços de alimentos

O comportamento dos preços de commodities agrícolas, como o trigo, segue no radar do Banco Central do Brasil (BCB), que monitora o impacto sobre a inflação doméstica. De acordo com o Boletim Focus de fevereiro de 2026, a expectativa para o IPCA é de 4,4% ao fim do ano, dentro da faixa de tolerância do regime de metas, que tem centro em 3,0% e margem de 1,5 ponto percentual.

Sob a presidência de Gabriel Galípolo, o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém a taxa Selic em 10,50% ao ano, com perspectiva de cortes graduais ao longo de 2026, condicionados ao comportamento da inflação e da atividade econômica. O câmbio médio projetado é de R$ 5,10 por dólar, refletindo um ambiente de volatilidade moderada e de cautela diante das incertezas externas.

A inflação de alimentos segue sendo um ponto de atenção, mas o controle dos preços do trigo e derivados tende a amenizar pressões no curto prazo, beneficiando o setor industrial e o consumidor final.

Fonte: Portal do Agronegócio

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