Publicado em: 12/02/2026 às 17:00hs
O Brasil iniciou fevereiro com forte avanço nas importações de arroz em casca, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Em apenas uma semana, o país movimentou US$ 650 milhões em compras externas do grão — valor que supera todo o volume financeiro registrado em fevereiro de 2025.
Na média diária, o ritmo é ainda mais expressivo: foram US$ 130 milhões por dia útil, contra apenas US$ 27,4 milhões no mesmo período do ano passado. O volume físico importado também subiu fortemente, alcançando 4.160 toneladas na primeira semana do mês, quase o dobro do total importado em todo fevereiro de 2025, que havia sido de 2.170 toneladas.
Apesar do aumento nas importações, o preço médio por tonelada caiu significativamente. Na primeira semana de fevereiro de 2026, o valor médio ficou em US$ 156,3 por tonelada, enquanto em fevereiro de 2025 estava em US$ 252,1.
Essa queda de cerca de 38% reflete o excesso de oferta no mercado global e uma disputa mais acirrada entre exportadores internacionais. O efeito, no entanto, é negativo para o produtor brasileiro: com arroz importado chegando mais barato, a concorrência pressiona as cotações domésticas, especialmente nas regiões do Sul, onde a colheita da nova safra está em andamento.
O analista da Safras & Mercado, Evandro Oliveira, aponta que o momento é de transição e ajustes para o setor arrozeiro, que enfrenta custos de produção elevados e margens cada vez mais apertadas.
“Estamos em um cenário de transição, mas é preciso acompanhar os números concretos da safra, especialmente no Rio Grande do Sul. Tudo indica que teremos uma área menor, abaixo de 900 mil hectares, o que pode ajudar a equilibrar oferta e demanda”, explica o especialista.
Segundo ele, o ciclo atual de baixa nos preços é mais severo do que em anos anteriores, pois ocorre em um contexto de custos operacionais elevados, o que agrava a crise de rentabilidade e compromete a sustentabilidade financeira dos produtores.
O cenário de margens negativas tem impacto direto sobre indústrias, cooperativas e fornecedores. Diversas empresas do setor enfrentam dificuldades financeiras, e a falta de liquidez no mercado preocupa os agentes do agronegócio.
“O custo de vida mais alto pesa no bolso do produtor. É um ciclo de baixa diferente, mais longo e mais difícil de enfrentar”, ressalta Evandro Oliveira.
O panorama internacional também influencia o comportamento do mercado brasileiro. A Ásia concentra cerca de 90% da produção mundial de arroz, e o excesso de oferta global tem se refletido nas cotações domésticas.
Com países como a Índia ampliando exportações e outros produtores asiáticos colhendo safras robustas, os preços internacionais seguem em queda. “Os preços do arroz são formados de fora para dentro. Como o Brasil representa apenas 10% da produção global, dependemos fortemente dessa sinalização externa”, observa o analista.
Outro fator de preocupação é o volume de estoques de passagem, estimado em mais de 2,2 milhões de toneladas. Esse excedente mantém o mercado abastecido e dificulta a recuperação dos preços.
Segundo Oliveira, o esvaziamento dos estoques é essencial para evitar uma pressão adicional com a chegada da nova safra. “O setor precisa colocar o produto para fora. O desafio agora é enxugar a oferta e reduzir o tempo desse ciclo de baixa”, explica.
Atualmente, as negociações giram entre R$ 50 e R$ 53 por saca em algumas regiões. Em operações voltadas à exportação, há registros próximos de R$ 62 por saca para produto posto no porto.
Diante do cenário, especialistas recomendam prudência nas decisões de comercialização. A retenção excessiva de grãos pode ser arriscada, já que a entrada da nova safra tende a aumentar a oferta e pressionar ainda mais os preços.
“O ano de 2026 será desafiador. É hora de manter o pé no chão e aproveitar as oportunidades de venda que surgirem, mesmo que em volumes menores”, alerta o analista.
Vender parte da produção pode ser uma alternativa estratégica para manter o fluxo de caixa e reduzir a exposição a quedas futuras.
Entidades do agronegócio buscam medidas que reduzam custos e incentivem o escoamento da produção, incluindo ajustes tributários e apoio logístico. No entanto, muitas ações dependem de decisões governamentais em nível estadual e federal.
Evandro Oliveira defende que políticas voltadas à redução de custos de produção seriam mais eficazes:
“Em algumas regiões, o custo por saca chega a R$ 100. Cada gargalo resolvido será uma vitória, mas os avanços serão graduais, a médio e longo prazo”, conclui.
Para o produtor rural, planejamento e gestão de risco tornam-se indispensáveis neste cenário de alta volatilidade. O equilíbrio entre importações crescentes, preços internacionais baixos e estoques elevados exige decisões estratégicas e prudentes.
O mercado aposta em uma recuperação gradual apenas a partir de 2027, com ajustes mais sólidos na oferta global e melhora na rentabilidade interna. Até lá, o setor deve manter o foco em eficiência produtiva e controle rigoroso de custos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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