Arroz de sequeiro: UFLA desenvolve cultivares para enfrentar a seca e diversificar a produção
Programa Melhor Arroz pesquisa linhagens adaptadas a Minas Gerais e utiliza edição gênica para ampliar a tolerância à falta de água; material CMG1590 está em fase final de registro
Publicado em: 02/10/2026 às 12:30hs
Ampliar a produção de arroz de sequeiro, reduzir a vulnerabilidade às condições climáticas e oferecer novas opções de cultivo aos produtores são os objetivos do programa Melhor Arroz, da Universidade Federal de Lavras (UFLA). A iniciativa desenvolve linhagens de arroz de terras altas com foco em produtividade, qualidade dos grãos, precocidade e tolerância à seca.
Conhecido na proposta como “arroz verde”, o cultivo em sistema de sequeiro é estudado como alternativa para diversificar a produção brasileira e tornar os sistemas agrícolas mais sustentáveis. Entre os resultados do programa, a linhagem CMG1590 está em fase final de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), enquanto dezenas de outros genótipos de elite passam pelas últimas etapas de avaliação.
Arroz de terras altas amplia alternativas ao sistema irrigado
Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) citados pela pesquisa, mais de 80% da produção brasileira de arroz vem do sistema irrigado, concentrado principalmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Tocantins.
A coordenadora do Melhor Arroz, Flávia Barbosa Silva Botelho, explica que o cultivo inundado demanda grande volume de água e está associado à emissão de metano, gás que contribui para o efeito estufa. Nesse contexto, o arroz de terras altas representa uma alternativa para ampliar a sustentabilidade da produção.
A proposta da UFLA é desenvolver materiais adaptados às condições de Minas Gerais, reunindo características que favoreçam o desempenho das lavouras e reduzam os riscos para o produtor.
Diversificação regional busca reduzir riscos ao abastecimento
A concentração da produção em poucas regiões também está entre as preocupações dos pesquisadores. Conforme as informações apresentadas pelo programa, o Brasil é o maior produtor de arroz fora da Ásia e produz aproximadamente 11 milhões de toneladas por ano, volume próximo ao consumo nacional.
Eventos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, evidenciam a vulnerabilidade dessa concentração. Para Flávia, ampliar as áreas produtoras é importante para reduzir a exposição do abastecimento a quebras de safra em regiões de grande participação na oferta.
A pesquisadora alerta que uma perda expressiva na produção brasileira poderia ser difícil de compensar com compras externas, diante do volume necessário para atender à demanda do país.
Rotação com soja e milho pode favorecer o manejo
O arroz de sequeiro pode integrar sistemas agrícolas utilizados para soja e milho, permitindo sua inclusão na rotação ou sucessão com essas culturas, além de feijão e trigo.
O objetivo é ampliar as alternativas disponíveis ao agricultor. A diversificação também permite variar práticas de manejo e pode contribuir para o controle de plantas daninhas resistentes.
Esse benefício ganha relevância em áreas com uso contínuo dos mesmos herbicidas, especialmente nos sistemas com soja e milho resistentes ao glifosato. A entrada do arroz no ciclo produtivo abre espaço para diferentes estratégias de controle e ajuda a sustentar o desempenho do sistema agrícola.
Edição gênica é estudada para aumentar a tolerância à seca
A falta de água permanece como um dos principais desafios do arroz de terras altas. Por isso, o Melhor Arroz mantém uma frente de pesquisa voltada ao desenvolvimento de plantas mais tolerantes à seca.
Em parceria com a Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos, os pesquisadores utilizam a técnica CRISPR-Cas9 para editar sequências de genes de interesse e investigar alterações que possam favorecer essa tolerância.
O trabalho integra o esforço para reunir produtividade, qualidade dos grãos e maior capacidade de enfrentar períodos de restrição hídrica. Essas características são centrais para ampliar a viabilidade do arroz de sequeiro nas condições estudadas pelo programa.
Programa reúne melhoramento genético e formação científica
Criado em 2013, o Melhor Arroz resulta de uma trajetória de pesquisa iniciada por Flávia em 2010, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop.
Após chegar à UFLA, a pesquisadora liderou a reestruturação dos estudos com a cultura. O programa foi estabelecido em parceria com a Embrapa Arroz e Feijão e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).
Desde sua criação, a iniciativa gerou mais de 60 artigos científicos, 28 dissertações de mestrado e 17 teses de doutorado. Além da formação de pesquisadores, o avanço da linhagem CMG1590 e a avaliação de novos materiais aproximam os resultados científicos de sua aplicação nas lavouras.
Fonte: Portal do Agronegócio
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