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O alerta é da economista e pesquisadora da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Clarissa Black, que tem estudado a fundo o impacto das commodities na economia brasileira e as razões que podem explicar o comportamento da cotação do grão. Clarissa atenta para o alinhamento entre os preços do petróleo e os da soja desde os anos de 1980, além da atuação de fundos financeiros, que podem turbinar a cotação ou derrubá-la. Para o Estado, o tema é sensível. Nunca se exportou tanta soja como em 2015, mas a renda é menor, efeito da cotação da tonelada que não rompe a barreira dos US$ 400 há mais de um ano.

Jornal do Comércio - O Brasil ganhou com a valorizaçãodas commodities?

Clarissa Black - Sim, mas é preciso pontuar que o impacto de preços no crescimento não é automático. A economia brasileira, diferentemente da de outros países latino-americanos (como Chile e Peru, cujo peso das commodities no PIB alcança 16%), depende menos, com 6% da riqueza vinda do segmento. Isso decorre de uma atividade mais diversificada e um mercado interno mais robusto. Mas as commodities foram importantes para as contas externas. De 2003 a 2011, com fluxo e preços positivos, o País pode adotar políticas para o crescimento. Mas agora as exportações não crescem tanto, e não há maior capacidade de importar, o que está relacionado com o baixo crescimento.

O que tem influenciado o preço da soja nas últimas décadas?

Há diversos fatores, entre eles a própria demanda chinesa (maior demandante no mundo), que é importante, mas não é a única determinante dos preços. Se formos olhar após 2012, que registra redução de preços, depois de chegar aos históricos US$ 622,91 por tonelada, não houve queda das importações chinesas. Tivemos ainda o tombo dos preços da crise internacional de 2008, que evidencia o efeito do mercado financeiro. Não há confirmação, mas o período registra redução de posições para cobrir perdas financeiras. Depois, o setor reaquece, e ocorre a recuperação dos preços. E tem ainda a relação entre as commodities agrícolas e o petróleo, que é bem sincrônica. O Banco Mundial reforça o impacto do petróleo e gás nos fertilizantes, usados nas lavouras.

A demanda ascendente da China só intensificou isso?

O consumo do país cresce desde a década de 1990, com efeito na valorização de preços após 2006. Agora continua a subir os embarques, mas os preços caem. Há ainda a ociosidade de 50% das indústrias processadoras. Tudo indica que a demanda por proteína continuará, o que eleva o uso da ração. A compra de minério também se mantém. Não há indicação de queda brusca.

O produtor aqui reclama que o fertilizante pesa mais no custo?

O petróleo e fertilizantes caem no mercado internacional, mas o câmbio subiu, elevando os custos já que se importa muito o insumo. Mas na trajetória internacional reforça-se a relação entre preço de soja e petróleo. O Banco Mundial (Bird) indica que, quando o barril atinge US$ 50, a relação fica mais evidente. Em 2006, quando a cotação do óleo atingiu este nível, tivemos o início do chamado boom das commodities agrícolas, reforçando a tese. O preço do barril está abaixo de US$ 90 desde outubro de 2014.

A tonelada da soja a US$ 622,91 (agosto de 2012) pode voltar um dia?

(risos)... É difícil fazer uma previsão dessas! Lá foi uma conjunção de fatores - preços recordes, câmbio valorizado. Evidências indicam que, naquele ano, a guerra da Líbia gerou repique dos preços do barril e influenciou a elevação.

Qual é o problema em ignorar tantos fatores?

A maior parte dos estudos não vai fundo, indica a China como resposta para tudo. Olhar só para isso pode surpreender quem não está atento. Mesmo que o mercado de derivativos em commodities seja pequeno em relação ao de ações, a atuação de grandes fundos internacionais pode gerar maior influência. Negligenciar essas variáveis pode pegar de surpresa os formuladores das políticas na área, obstinados em dar uma resposta rápida e simples a um fenômeno que se mostra mais complexo do que se imagina.

 

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