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A queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,2% no primeiro trimestre é apenas o início de uma recessão profunda que o País enfrentará neste ano e que poderá gerar uma retração de 1,5% a 2% em 2015, afirma Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington. Ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ela ponderou que o ajuste fiscal "necessário" mal começou e deve gerar efeitos contracionistas da atividade nos próximos meses. Ela estima que o PIB cairá 0,4% no segundo trimestre, em relação ao primeiro.

Na avaliação da economista, os investimentos não deverão decolar ainda no fim deste ano por causa de alguns elementos, com destaque para a crise política entre o Palácio do Planalto e o Congresso. "Veja o caso de votações importantes de medidas provisórias relativas ao ajuste fiscal. Muitos partidos são contra, inclusive o PT", diz. "Se permanecer esse quadro, as empresas não têm um cenário estável para investir alguns anos à frente no Brasil." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a sra. avaliou o resultado do PIB do primeiro trimestre?

Mais que a queda de 0,2%, na margem, é preciso destacar que ocorreu uma retração de 0,9% no acumulado em quatro trimestres ante os quatro trimestres anteriores. Isso dá uma dimensão da recessão que devemos enfrentar neste ano. Além de uma considerável retração da indústria, também ocorreu uma queda expressiva de serviços, o que explica em boa medida a deterioração no mercado de trabalho no começo deste ano. Em função da perspectiva negativa da economia para 2015, o consumo das famílias também foi bem afetado.

Qual deve ser o desempenho da economia no segundo trimestre e em todo o ano de 2015?

A recessão no Brasil está apenas no começo, e é bem provável que a contração do PIB entre abril e junho seja de 0,4% ante o primeiro trimestre, que já apresentou retração. O ajuste fiscal, que é uma política de correção necessária das contas públicas, ainda mal iniciou seus efeitos sobre o nível de atividade. Como não vejo recuperação da economia no segundo semestre, por causa de uma série de fatores, acredito que o País deverá registrar uma retração entre 1,5% e 2% neste ano.

As concessões públicas que o governo deverá anunciar no dia 9 de junho ajudarão a destravar os investimentos ainda neste ano?

Acho muito difícil. Primeiro, é preciso que elas sejam anunciadas para verificar quais os projetos que estarão no seu conjunto e suas condições, como taxa interna de retorno e clareza de regras. O ambiente econômico e sobretudo político no Brasil não deverá estimular um avanço da Formação Bruta de Capital Fixo ainda neste ano.

Como o ambiente político está influenciando as decisões de investimentos no País, além dos efeitos causados pela apuração da Operação Lava Jato?

Muitos empresários com quem converso, de empresas grandes e multinacionais, observam que há um imenso embate entre os poderes Legislativo e Executivo como não ocorria há muito tempo. E isso traz muitas incertezas, pois não há nenhuma perspectiva de acomodação ou harmonia no curto prazo. Veja o caso de votações importantes de medidas provisórias relativas ao ajuste fiscal proposto pelo governo. Muitos partidos são contra, inclusive o PT, como já mostraram diversos dos seus parlamentares na Câmara e no Senado. O PSDB faz oposição pela oposição, algo sem sentido, o que gerou a votação contrária ao fator previdenciário. Enquanto isso, o apoio do PMDB ao governo apenas ocorre para aproveitar vácuo de poder. A permanecer esse quadro, as empresas não têm um cenário estável para investir alguns anos à frente no Brasil.

Mas as atuais políticas fiscal e monetária não são atenuantes?

É verdade. Mas, embora essas duas áreas do governo tenham melhorado, são políticas de estabilização, apenas para correção de rumos errados adotados nos últimos anos pelo próprio Executivo, apesar de todo o esforço do ministro Joaquim Levy e da diretoria do Banco Central para reduzir a inflação. É preciso fazer mais para que o País saia da recessão e possa crescer o quanto precisa e merece.

E o que o governo deveria fazer para o crescimento voltar a ser sustentável no longo prazo?

Além de um bom avanço das concessões públicas em infraestrutura, é necessário atuar em algumas frentes. Uma delas é a simplificação tributária, com redução de burocracia e do excesso de licenças para que as empresas possam atuar no País. Além disso, é fundamental uma abertura comercial e maior integração com parceiros internacionais, o que inclusive vai elevar a absorção de tecnologias. No Brasil, quando se busca reduzir o emaranhado dos impostos, alguns setores são beneficiados por isenções tributárias, muitas vezes por questões políticas. E, para fazer frente a esses gastos, o governo acaba elevando impostos de importação. Essa lógica é negativa para elevar a competitividade do País.

A sra. defende uma revisão mais radical do papel do BNDES no desenvolvimento do País?

Certamente. O BNDES é uma instituição muito importante para o Brasil, mas sua atuação precisa ser revista rapidamente. Não é possível que 40% da sua carteira de investimentos seja destinada às dez maiores empresas que atuam no País. Defendo que o BNDES tenha um papel firme no apoio a concessões públicas para diminuir os riscos de projetos fundamentais em logística, transporte e energia, com maturação de algumas décadas. E também no papel de liberação de funding para esses projetos. Além disso, é necessário ter uma atuação muito mais firme de fomento à inovação. As pequenas e médias empresas deveriam ter um apoio mais expressivo, com um foco especial para as que têm maior potencial de expansão nos seus respectivos mercados, pois nelas serão gerados empregos de forma mais duradoura.

Como a sra. avalia o potencial do crescimento do País hoje?

Se forem adotadas algumas mudanças importantes, com avanço significativo das concessões em infraestrutura e ações relevantes no segmento tributário e melhora do ambiente de negócios, acredito que poderemos voltar a crescer 2% ao final de 2017. Para avançar mais, entre 3% e 3,5% ao ano a partir daquela data, serão necessárias mudanças estruturais muito mais profundas nas áreas que citei.

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