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Na última quinta-feira, 11/1, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s anunciou um novo rebaixamento da nota de crédito do Brasil, de BB para BB-.

As agências de classificação de risco avaliam a análise de crédito de empresas e países. Ou seja, medem a capacidade de um credor pagar o que pega emprestado no mercado. Suas avaliações definem o nível de risco de se investir em determinado mercado. Simplificando, quanto menor for a nota de crédito, menos investimentos chegam ao país, menos dinheiro é injetado na economia e por fim, aumentam-se as chances de elevação da taxa de juros.

Em 2008, pela primeira vez, o Brasil havia conquistado o “Grau de Investimento” pelas agências internacionais Fitch Ratings e Standard & Poor’s, e em 2009 conseguiu a classificação pela Moodys. Mas em 2015 a S&P foi a primeira a tirar o selo de bom pagador, ação seguida pelas outras duas agências. A partir de então o Brasil foi escalado na “Categoria de Especulação”. Com a nova nota da S&P, o país agora está três degraus abaixo do “Grau de Investimento”, menor patamar desde 2005.

No relatório, a S&P aponta que o atraso na aprovação de medidas para reequilibrar as contas públicas e a incerteza política são os principais fatores que puxaram para baixo a nota de crédito do Brasil.

Para comentar sobre quais são os impactos dessa notícia na economia brasileira, a Scot Consultoria convidou Marília Fontes, mestre em Economia pelo Insper, trabalhou durante 7 anos como gestora de Renda Fixa em Assets como Itaú, Mauá e Kondor, atuando em fundos locais e internacionais. Autora do livro “A renda fixa não é fixa”. Atualmente Marília é analista da Empiricus Research. Confira:

Scot Consultoria: Marília, quais foram os principais motivos que levaram a agência de risco S&P rebaixar a nota do Brasil?

Marília Fontes: Segundo uma entrevista dada por Lisa Schineller, diretora-executiva da S&P, o motivo foi “a noção de atrasos em sequência que refletiram um amplo padrão de lentidão e de desafios em aprovar matérias difíceis da legislação fiscal, o que requer amplo apoio político”.

Como está a avaliação brasileira em outras agências de rating?

Na agência Fitch, a nota é BB, com perspectiva negativa. Na Moody’s é Ba2 (equivalente a BB), com perspectiva negativa também.

Essa notícia muda efetivamente alguma coisa na economia e no fluxo de investimentos? Ou é somente uma constatação de algo que já estávamos vivenciando no mercado?

Absolutamente nada. A principal mudança, em termos de fluxo de investimentos, foi quando passamos de BBB- para BB+, perdendo assim o “Grau de Investimento”. Alguns fundos internacionais são proibidos de investir em países sem o selo. A nota BB já está dois níveis abaixo do selo, ou seja, quem não poderia estar aqui pelas regras, já não está. Foi apenas uma constatação que, inclusive, já estava bem precificada nos preços de mercado. No dia do anúncio do rebaixamento, o real se valorizou 0,44%, o juro longo caiu 4 ponto-base e a Bolsa ficou parada.

As projeções para o PIB apontam recuperação, nossa inflação fechou abaixo da meta, a taxa de juros está controlada. O que pode mudar daqui para frente nestes números diante do rebaixamento da nota? É possível uma reversão destes fatores?

Não por isso. A mudança da nota não impacta em nada concreto. As agências de classificação de risco estão sem credibilidade depois da crise do subprime, quando bancos considerados AAA quebraram em poucos meses. Não se olha mais para rating como no passado, e sabe-se que as agências demoram meses para revisar notas de crédito, o que faz com que a conclusão da nota seja uma notícia completamente antiga para o mercado.

Em sua opinião, esta decisão da agência de classificação de risco S&P Global Ratings de rebaixar a nota de longo prazo do Brasil de "BB" para "BB-" ajuda a reforçar o discurso sobre a necessidade imediata de mudanças nas regras previdenciárias para dar sustentabilidade às contas públicas?

Ajuda sim, mas não acho que será capaz de mudar a mentalidade nem dos políticos, que estão mais preocupados em sua popularidade para as eleições, nem do eleitorado brasileiro, que tradicionalmente demanda privilégios do governo.

Quais implicações para a economia de se deixar a votação da reforma para 2019, quando um novo presidente tomar posse?

Se ela for de fato aprovada em 2019, a diferença é pouca. Um ano específico não muda tanta coisa. O problema do aumento dos gastos com a Previdência está ligado ao processo de envelhecimento da população, que é uma tendência lenta, mas contínua. O déficit passa a ter trajetória explosiva lá para 2025, não é imediato.

Caso a reforma da Previdência não seja aprovada, o que podemos esperar em relação a inflação e juros?

Podemos esperar uma tendência de alta dos juros e da inflação, que deve se desenrolar ao longo do tempo, não necessariamente de forma linear. Se o crescimento for muito forte neste ano, o mercado pode entrar em uma onda de otimismo e esquecer um pouco o assunto por alguns meses.

Por fim, qual a previsão de economistas sobre as principais variáveis macroeconômicas brasileiras em 2018?

Segundo o relatório Focus do Banco Central, que mostra a estimativa média dos economistas, a inflação para 2018 está em 3,95% e para 2019 em 4,25%. A Selic para o fim do ano de 2018 está em 6,75% e para 2019 em 8,0%. O PIB para 2018 está 2,7% e para 2019 em 2,8%.

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