A Vale anunciou ontem 1,3 mil demissões no Brasil e no mundo, o que representa 2,1% do total de 60 mil funcionários. No mercado interno, a companhia emprega 47,5 mil pessoas. A maioria das dispensas foi em Minas Gerais - 20% foram naquele estado. Outros 5,5 mil entram em férias coletivas escalonadas e 1,2 mil estão em treinamento para serem realocados dentro da companhia.
Conforme a empresa, a reestruturação do quadro de funcionários é conseqüência da crise financeira internacional e resultado da redução das encomendas das siderúrgicas, principais clientes da Vale. Atualmente, a mineradora tem 62 mil funcionários no mundo. A intenção da Vale é reduzir ao mínimo o número de demissões, devido ao elevado nível de qualificação e de investimento em treinamento.
Em relação às férias coletivas, os 5,5 mil funcionários atingidos pela medida devem parar de maneira escalonada, onde 80% estão concentrados em Minas. A previsão é que o revezamento ocorra até fevereiro. A Vale informou no fim de outubro que vai reduzir sua produção de minério de ferro e outros minérios e subprodutos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Amapá, além de plantas industriais e minas no exterior. Fora do País, sofrerão reduções de produção atividades localizadas na França, Noruega, China e Indonésia.
O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos (Metabase) de Itabira (MG) e região ameaça promover até a ocupação de minas da Vale no município, em protesto contra as demissões programadas pela empresa. Para analistas de mercado, a decisão aponta para um corte mais profundo de produção do que os 30 milhões de toneladas (9,5% do total) anunciados no fim de outubro. O banco Goldman Sachs avalia que o corte da produção pode subir para 45 milhões de toneladas. A virada na produção foi muito rápida. Até setembro, antes da quebra do banco Lehman Brothers, que detonou a crise financeira mundial, a Vale planejava ampliar a produção de 270 milhões para 300 milhões de toneladas de minério de ferro.
Também é grande o número de dispensas no Espírito Santo. No porto de Tubarão, 500 funcionários teriam sido dispensados e há rumores de que outra leva igual será demitida até o início da semana que vem. Na sede da empresa, no Rio, departamentos inteiros estão sendo extintos, como alguns ligados à área fiscal e de controladoria. A rescisão dos contratos está sendo feita com a oferta de benefícios, como dois salários-base do funcionário, além do aviso-prévio, seis meses de manutenção do plano de saúde e seis meses de assistência com consultoria de recursos humanos, para recolocação no mercado.
Diante da freada brusca na produção mundial de aço nos últimos meses, analistas apostam que a Vale terá que reduzir ainda mais sua produção. O quadro de desaquecimento das siderúrgicas e o cancelamento de encomendas é mais forte que o previsto pela empresa. Só a ArcelorMittal, maior grupo siderúrgico do mundo, já reduziu sua produção em 30%. O analista Pedro Galdi, da SWL Corretora, acredita que a Vale terá de rever o tamanho de seu ajuste para se adaptar à nova realidade. "Não há porque produzir se você não vai ter como vender", explicou.
Siderurgia passa de escassez a excesso de aço
Em dois meses e meio, o setor siderúrgico passou de um cenário mundial de escassez de oferta para o outro extremo, de excesso de aço e retração da demanda. Resultado inevitável: revisão e eventual suspensão de investimentos do setor.
No Brasil, entraram automaticamente na geladeira projetos avaliados em US$ 13 bilhões, com planos de efetivação a partir de 2010, e que representariam aumento de capacidade de produção de aço em 16,5 milhões de toneladas. Segundo avaliação do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) estes investimentos, tidos como certos até o início da crise, estão ameaçados.
"Em função do que tivermos pela frente, há possibilidade de mexer em tudo. A questão é que 2009 virou um grande ponto de interrogação. Há um grau de preocupação das empresas em relação ao nível de desaceleração", afirma o vice-presidente executivo do IBS, Marlo Polo de Mello Lopes. Ele destaca que, hoje, a grande preocupação do setor é preservar o que já tem.
Pelo menos quatro grandes siderúrgicas anunciaram nas últimas semanas antecipação de paradas de altos-fornos para manutenção. A medida, periodicamente necessária na indústria de aço, suspende produção nos altos-fornos por dois meses, em média.
Exportadoras terão processo de ajuste mais difícil, diz Dilma
Ao comentar a notícia de que a Vale vai demitir 1,3 mil funcionários no mundo, sendo alguns deles no Brasil, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que as empresas mais dependentes de exportação deverão ter um processo de ajuste mais difícil perante a crise.
"Estamos em um processo de desaceleração, mas isso não significa que o Brasil vai entrar em recessão ou em uma crise profunda", disse.
Dilma admitiu que, "sem sombra de dúvida", o País sentirá os efeitos da crise com mais intensidade nesse último trimestre do ano e, principalmente, no primeiro trimestre de 2009. "Em outubro, novembro e dezembro, teremos uma desaceleração e também no primeiro trimestre. Seja pela crise, seja por fatores sazonais", disse a ministra.
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