A afirmação do pesquisador da Embrapa Gado de Leite Luiz Aroeira causa impacto não só entre os ambientalistas, mas em todo o setor agropecuário, que vê a região como uma reserva promissora de exploração. O Cerrado brasileiro é o segundo maior bioma do País (só perde para a Floresta Amazônica) e é também o segundo mais devastado (só perde para a Mata Atlântica). Com 2,5 milhões de quilômetros quadrados, restam apenas 20% da cobertura de vegetação original.
A topografia plana, que facilita a mecanização, e o preço baixo das terras, contribuíram para que a região central do Brasil se transformasse no grande impulsionador do agronegócio nacional. Prova disto é que Goiás se tornou um dos Estados onde a pecuária de leite mais cresceu nos últimos anos. A atividade é tradicional na região e foi uma das que proporcionou a colonização do Cerrado. “A vegetação característica motivou o estabelecimento de uma pecuária bem adaptada ao eco-sistema”, diz Roberto Malheiros, o coordenador de projetos do Instituto Trópico Sub-úmido, do Memorial do Cerrado, vinculado à Universidade Católica, de Goiás.
Este cenário, no entanto, não resistiu à “revolução verde”, que teve início nos anos 60 e se consolidou uma década depois. A monocultura de soja, milho, cana-de-açúcar e sorgo promoveu a grande devastação que dura até hoje. A própria pecuária, antes, tão bem adaptada, se rendeu ao estabelecimento das gramíneas exóticas. E a vegetação natural foi desaparecendo. Uma viagem de avião de Brasília a Goiânia não dura mais que meia hora, mas é o suficiente para perceber o quão grande é o problema.
Vê-se um cenário de ecologia devastada: imensos campos vazios entrecortados por lavouras irrigadas no sistema de pivô central, compondo um quadro de biodiversidade aniquilada, de poucas comparações no mundo. Malheiros explica que o Cerrado é um mosaico de vegetais que incluem campos abertos e ambientes de florestas. Um traço comum neste mosaico é o sistema radicular profundo das plantas que ali vivem. “Devido às longas raízes cuja finalidade é buscar mais profundamente os nutrientes do solo, o Cerrado é tido como uma floresta de cabeça para baixo”, diz. Tal característica aumenta a porosidade do solo, permitindo uma grande infiltração de água. Acrescenta-se o fato do planalto central ser a cumeeira da América Latina já que ali nascem as maiores bacias hidrográficas do Brasil (do Paraná, Amazônica e do São Francisco). Além disto, o Cerrado abriga três grandes aqüíferos, verdadeiras “caixas-d’água” subterrâneas: Guarani, Bambuí e Urucúia.
“O modelo agro-exportador estabelecido no Brasil Central faz com que grandes áreas estejam em processo de desertificação”, alerta Malheiros. Contribui para isso a monocultura - com seu sistema radicular curto - favorecendo a erosão eólica. Mais um fato que denota a fragilidade do bioma é o Cerrado possuir áreas que são verdadeiros desertos adormecidos, escondidos apenas por uma fina cobertura de solo. Desmatar significa aflorar estes desertos.
Malheiros acredita que o atual grau de devastação já comprometeu a biodiversidade do sistema. Muitas espécies foram perdidas com o desmatamento. Espécies que poderiam contribuir em benefício da própria pecuária. É o caso da Unha d’anta, uma planta ainda presente no Cerrado baiano que vem sendo estudada pelo Instituto Trópico Sub-úmido e parece agir no combate ao carrapato bovino.
Leite ecológico como solução – Voltando à afirmação de Aroeira de que o leite pode ser a solução para explorar o Cerrado de forma ecológica,o pesquisador vem justificando-a por meio de um experimento realizado em Senador Canedo, a 30 km de Goiânia. Em parceria com a Agência Rural de Goiás, foram plantadas em uma fazenda experimental quatro mil espécies de plantadas nativas ou adaptadas na região. Espera-se chegar a 10 mil espécies.
“Queremos testar o potencial de árvores e arbustos como forrageiras. A fazenda vai servir como unidade demonstrativa. Com 30 vacas da raça Gir, sendo que 20 produzem 200 litros de leite, em média, a propriedade abrigará um pequeno laticínio para processar a produção”, relata. As sementes das árvores e arbustos foram doadas pela PUC de Goiás e são, na sua maioria, leguminosas. Além de sustentar a produção de leite, elas têm a vantagem de incorporar nitrogênio no solo.
Aroeira diz que a escolha das espécies levou em consideração o crescimento rápido, o que justifica a opção por algumas árvores exóticas. Entre as espécies nativas usadas estão a Estilosante, Cratília, Jatobá, Pequi, Mutamba, Aroeira, Baru e Cagaita. O doutor em zootecnia, Robert Macedo, que conduz o projeto no campo, informa que nas curvas de nível serão plantadas frutas como goiaba, caju e banana. “A bananeira, além de fornecer o fruto, poderá ter suas folhas usadas como vermífugo natural no rebanho”, afirma.
A plantação das espécies arbóreas foi feita em linhas com cinco metros de distância entre elas. Quando estiverem crescidas, as copas irão produzir um sombreamento de 50% na braquiária, gramínea utilizada na fazenda. Macedo explica que a cada dez metros vão ser plantadas árvores isoladas e ainda será realizado um reflorestamento nos limites da propriedade com quatro espécies nativas (Aroeira, Baru, Jatobá e Pequi). “Serão oito mil metros quadrados de mata em torno da propriedade que servirá como uma barreira natural”, conta Macedo.
Vão ser formados pequenos bosques onde se dará a recria. Haverá também um cuidado especial em relação à mata ciliar de um pequeno açude existente na propriedade. A mata será preservada e ampliada. “Queremos com este projeto quebrar a resistência que alguns produtores têm no que diz respeito aos sistemas silvipastoris”, diz o pesquisador. Resistência que o produtor Juscelino Kubtischek Riachuelo, homônimo do presidente que levou a capital do Brasil para o Cerrado, nunca teve.
JK, como é conhecido entre os amigos, sempre viu na vegetação do Cerrado uma ótima alternativa de alimento para o gado. Jornalista por profissão, ele se tornou pecuarista há sete anos, produzindo em terras que herdou da família. Curioso e bom observador, JK percebeu que no período seco as vacas comiam as folhas das árvores. Ele começou a identificar as espécies que eram mais consumidas, amarrando nelas um cordão vermelho. Depois, levava uma amostra para a Universidade Federal de Goiás para conhecer a espécie. Ao mesmo tempo, trocava experiências com peões e fazendeiros.
Gado rústico é mais adequado - JK se tornou um pesquisador voluntário do Cerrado. Seu conhecimento sobre as plantas vai além do amadorismo. Num pequeno passeio pela cidade, ele identifica espécie por espécie que ornamenta Goiânia, relatando o potencial forrageiro de cada árvore. Graças ao conhecimento adquirido, criou um sistema peculiar baseado em gramíneas e árvores (leia entrevista a baixo). Em sua propriedade, as árvores não ficam misturadas com o capim. JK ensina: “A área tem que ser dividida em duas. Na primeira, para a época das águas, estão o capim e as leguminosas consorciadas. Na segunda, para a seca, são cultivadas apenas as árvores. Claro que não é proibida a presença do capim, mas as gramíneas não podem prejudicar os arbustos. Por isto eu chamo o pasto das secas de pasto combinado e não consorciado”.
Ele mantém na propriedade três vacas por hectare. As árvores ocupam 30% da área da fazenda; os 70% restantes são cultivados com gramíneas. O baixo custo do sistema chama a atenção. “Segundo projeção que fizemos com técnicos da Agência Rural, o quilo da matéria seca proveniente das árvores sai em torno de cinco centavos, mesmo valor da matéria seca do capim”, diz JK. Os custos são ainda mais reduzidos considerando que o sistema é auto-suficiente. “Para uma produção de até 10 litros de leite vaca/dia, não é necessário nenhum outro tipo de volumoso e nem concentrado comercial. O sal mineral é o único suplemento a ser fornecido”.
O leite ecológico de JK só faz uma exigência: animais rústicos. A raça Gir é a mais adequada e consome muito bem as plantas. Outra vantagem é que, por terem menos problemas com carrapatos, as vacas não se coçam nas árvores, não destruindo o pasto. “Entendo que as raças zebuínas se adaptam melhor ao sistema por serem mais sadias, terem menos problemas de cascos e por consumirem e metabolizarem melhor este tipo de alimento”, diz JK.
Aliás, o Gir parece ser a tendência do Cerrado. O veterinário Gilmar Cordeiro de Souza tem uma fazenda nos arredores de Goiânia onde produz animais Gir. Há algum tempo, a raça holandesa esteve “na moda” em Goiás. Depois de enfrentar problemas com carrapatos e estresse térmico, os produtores estão voltando às origens. “A experiência com o gado europeu não deu certo e muitos produtores estão comprando touros Gir para azebuar o rebanho”, afirma Souza lembrando que a mudança na genética não chega a ser um problema, no que diz respeito à relação custo/produção.
Na propriedade de Souza cada vaca produz no inverno, só com o pasto, cerca de cinco litros de leite por dia. “Com pastagem de boa qualidade, mais dois quilos de ração, podemos chegar a nove litros, com picos de 14”, afirma Souza. Ele também tem uma preocupação ecológica com o Cerrado e adotou medidas ambientais em sua fazenda: fechou a mata ciliar, parou de roçar o pasto para as arvores naturais crescerem e não deixa o gado entrar nas áreas de mata. Souza concorda que a pecuária de leite possa contribuir para a preservação. “No passado, a pecuária de corte promoveu um super-pastejo, contribuindo para a degradação. Com o gado de leite podemos evitar este problema, já que a resposta da produção ao pasto ruim é mais imediata”, diz, resumindo, com outras palavras: pasto ruim, pouco leite. Isto ajuda na conscientização do produtor.
Entrevista
Receita de exploração
O jornalista Juscelino Kubtischek Riachuelo, proprietário da Fazenda Riachuelo, levou para pecuária de leite duas das virtudes de sua profissão: curiosidade e capacidade de observação. Há sete anos na lida com o rebanho, atividade que concilia com a de apresentador de televisão, criou um modelo que define como “sistema Cerrado de produção” e que, para seu orgulho pessoal, vem chamando a atenção de alguns pesquisadores da Embrapa Gado de Leite. Nesta entrevista detalha o seu projeto de exploração.
BB – O que vem a ser o sistema cerrado de produção?
Jucelino Kubtischek – É um sistema que consiste em combinar ações gerenciais e de produção de forrageiras para garantir equilíbrio entre demanda e oferta de alimento para o rebanho durante todo o ano. O objetivo é baixar os custos de produção e garantir rentabilidade de modo ecologicamente correto.
BB – Após avaliar 126 espécies de árvores e arbustos, o senhor chegou a algumas que classifica como sendo de potencial forrageiro. Quais são elas e quais foram os critérios de seleção?
JK – Entendemos como potencial forrageiro uma espécie perene que produz quantidade e qualidade de massa foliar, que suporta as condições do Cerrado e que apresenta baixa queda de folhas durante a seca. Mesmo depois de freqüentes pastejos, a rebrota deve ser rápida e com vigor. A planta também tem que ter boa capacidade de se reproduzir por sementes ou por estacas. Além disto, é claro, deve ser bem consumida pelo gado. As melhores espécies para isso são: Angico, Angá, Cratília, Estilosantes, Mutamba, Açoita-Cavalo, Sombreiro, Cássia, Guandu, Leucena Diversifolia, Centrosema e Pata-de-Vaca.
BB – Como é feita a implantação do sistema?
JK – Não difere muito da implantação de outra cultura qualquer: análise do solo, correção da acidez, gradagem, plantio e conservação da cultura nos primeiros meses. Embora as árvores sejam mais eficientes na utilização dos nutrientes, deve-se usar adubo no plantio para um bom estabelecimento. A vantagem é que a quantidade de adubo é menor que nas culturas anuais. Calcário, fósforo e micro-nutrientes são também necessários. O termofosfato é mais interessante que as fontes de fósforos solúveis em água. Depois de trinta dias de nascidas, deve-se fazer uma cobertura com nitrogênio e potássio para acelerar o desenvolvimento.
BB – E os cuidados no cultivo?
JK – Alguns cuidados dizem respeito ao combate sistemático a formigas, cupins e principalmente ao capim presente na região. A aração da área deverá ser feita no final das águas, em abril ou maio. Dessa forma, o capim vai morrer durante a seca. Quando começar as chuvas, deixe germinar o banco de sementes; depois, gradagem e plantar em seguida. As árvores não conseguem competir com o capim na fase inicial.
BB – Quando é realizado o plantio?
JK – Em Goiás, as sementes são coletadas até setembro. O plantio é feito em novembro ou dezembro, com a terra preparada no início das chuvas. A ocorrência de 100 milímetros de chuva é o sinal verde para o plantio.
BB – Como as árvores se comportam durante a seca?
JK – Há uma queda de folhas, logicamente. Para diminuir esta queda, adotamos uma prática simples: podamos as árvores. Assim elas perdem o ciclo reprodutivo e continuam com o vegetativo, aumentando a área foliar e perdendo menos folha no período da estiagem.
BB – Como deve ser feito o manejo do rebanho neste sistema?
JK – O primeiro procedimento é dividir a área de pastagem da fazenda em duas: a das águas, gramíneas consorciadas e a da seca, com árvores. Durante as chuvas, o pastejo no capim segue normalmente com três a cinco dias por piquete e 30 dias de descanso. Neste período, as árvores são preservadas. Durante a seca, por volta do dia 15 de julho aqui em Goiânia, utilizam-se as árvores. Aqui na fazenda, fiz 46 piquetes na área de árvores. São dois dias de pastejo por piquete com 90 dias de descanso, prazo necessário para o rebrote.
BB – No período das chuvas as vacas podem comer as árvores?
JK – Nos dois primeiros anos, quando elas ainda estão se estabelecendo, não é aconselhável. Arrancar as folhas prejudica o desenvolvimento radicular. Mas, para não desperdiçar a forragem, antes de realizar a poda é interessante que as vacas pastem no local. Isto até facilita o trabalho de poda.
BB – Quando é feita a poda?
JK – Nos meses de março ou abril. É preciso aproveitar um pouco das chuvas para garantir um rebrote mais vigoroso. Quanto ao equipamento, pode-se utilizar o alicate de cortar galhos, o podão ou então a moto-serra com aparador de cerca viva. O tamanho das árvores não deve ultrapassar 1,5 metros.
BB – Qual o custo de implantação do pasto de árvores?
JK – Não difere muito do das gramíneas. Talvez seja até mais barato já que as sementes estão disponíveis no Cerrado, não se pagando nada por elas.
BB – As vacas já podem pastar as árvores no ano de implantação do sistema?
JK – Podem, mas é importante adotar uma lotação menor. Uma vaca por hectare é o que recomendo. No primeiro ano também não se deve podar. Apenas o primeiro galho de cima é cortado. Isto faz com que elas criem mais galhos e produzam mais folhas durante a seca.
BB – Qual a categoria do rebanho se adapta a este sistema?
JK – Todas. Bezerras, novilhas de reposição, garrotes, vacas criadeiras e leiteiras e machos de engorda. Estamos trabalhando com vacas de leite porque este é o foco da nossa propriedade.
Rubens Neiva
Reportagem publicada na revista Balde Branco
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